Colunistas chamam atenção para distúrbios de linguagem na infância, um problema comum e negligenciado no Brasil

Por Debora M. Befi-Lopes e Aparecido José Couto Soares

Estima-se que cerca de 5% das crianças em torno dos cinco anos de idade possuam alterações específicas de linguagem (AEL), distúrbios que afetam o processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem. O problema, muito frequente, merece atenção porque interfere consistentemente na capacidade de socialização e aprendizagem desses indivíduos, impactando sua vida social, acadêmica e, futuramente, profissional.

Sob a perspectiva das alterações específicas de linguagem, é importante distinguir dois quadros: em um deles, o chamado retardo de linguagem, a evolução da linguagem ocorre em ritmo mais lento em decorrência de fatores externos facilmente identificáveis, como otites recorrentes ou baixa estimulação linguística em contexto familiar. As crianças identificadas com retardo de linguagem geralmente apresentam perfil linguístico inferior àquele esperado para sua faixa etária, podendo apresentar baixo número de palavras expressas, redução na extensão do discurso e ausência de comprometimento em outras áreas. Frequentemente, pelo fato de os prejuízos estarem associados às questões ambientais, estes são superados facilmente com orientação familiar e processo terapêutico, até os cinco anos de idade.

Em um outro quadro, que também está no espectro alterações específicas de linguagem, a alteração de linguagem é intrínseca e persistente, com evolução lenta e características desviantes daquelas encontradas em crianças com desenvolvimento típico. Tal conjunto de alterações é denominado distúrbio específico de linguagem, o DEL. As características linguísticas descritas para os quadros de retardo de linguagem também são observadas em crianças com DEL, porém, a diferença principal é que, nessas últimas, as alterações observadas estão associadas a forte componente genético e são persistentes, ou seja, acompanham o indivíduo ao longo de sua vida, e podem trazer comprometimento para o desenvolvimento social, afetivo, emocional e escolar. Destaca-se que, para o adequado manejo dessas crianças, é importante o acompanhamento fonoaudiológico para que se realizem avaliações específicas a fim de traçar o perfil linguístico e a identificação adequada das possíveis origens das alterações apresentadas.

Falando mais especificamente sobre o DEL, é importante pontuar que a criança com o distúrbio tem alterações significativas no processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem, mas tem suas habilidades cognitivas preservadas. O diagnóstico de DEL é sugerido quando os déficits linguísticos apresentados pela criança não podem ser atribuídos à deficiência auditiva, à disfunção neuromotora, à déficit intelectual, aos transtornos invasivos de desenvolvimento e aos fatores exclusivamente ambientais.

Crianças com DEL produzem enunciados menores do que seus pares normais, utilizando frases simples e curtas para se comunicar. Estas estruturas linguísticas simples são resultado da dificuldade de manipular, organizar e processar os componentes linguísticos em diversos níveis de complexidade. Essas crianças apresentam grande sobrecarga no sistema de processamento da linguagem quando são submetidas a uma tarefa de produção mais complexa e extensa. Além disso, verificam-se também alterações fonológicas (produção incorreta dos sons da fala), uso de vocábulos restritos, além de dificuldade de adquirir palavras novas e ordenação de palavras de maneira não usual.

Cabe ressaltar que o diagnóstico de DEL é muito difícil de ser atribuído a uma criança antes dos seus cinco anos de idade, entretanto, por volta dos quatro anos, já é possível observar dificuldades de participação do jogo comunicativo e simbólico, além de histórico de atraso no balbucio e na emissão das primeiras palavras. É muito comum que crianças com DEL, ao redor dos quatro ou cinco anos de idade, apresentem produções orais predominantemente simples e uso praticamente inexistente de artigos e pronomes. Dessa maneira, é possível observar, desde a pré-escola, manifestações linguísticas que podem indicar possíveis alterações específicas de linguagem.

 

Sinais de alerta
Confira algumas características de comunicação de crianças com DEL ao redor de 5 anos. Lembrando que nem todas exibem todos esses sinais:

– Vocabulário reduzido para a idade
– Fala com erros (trocas, omissões ou substituições de sons)
– Uso de frases curtas, com pouca utilização de pronomes, preposições, conjunções
– Inversão na ordem dos elementos das frases
– Pouca ou nenhuma habilidade para contar histórias e/ou narrar fatos
– Dificuldades para compreender ordens complexas
– Dificuldades para realizar brincadeiras com rimas, complementar frases, compreensão de duplo sentido
– Tendência a se isolar ou ter comportamento irrequieto em decorrência das poucas habilidades linguísticas
– Preferem brincar com crianças mais novas

 

Nesta faixa etária, é comum que estas crianças enfrentem dificuldades na socialização com impacto na interação com seus pares, uma vez que sua fala, comumente reduzida ou ininteligível, costuma não ser entendida pelos colegas. Sendo assim, observa-se redução na socialização o que pode levar também a prejuízos psicoemocionais.

Neste sentido é papel da escola e do professor da educação infantil, procurar estratégias para a inclusão dessa criança no jogo comunicativo, de forma a promover a interação dela com seus pares, estimulando a sua inclusão nas diferentes atividades e, consequentemente, possibilitando aumento na sua capacidade comunicativa.

No que se refere ao processo de reabilitação propriamente dito, a intervenção fonoaudiológica é fundamental, sendo que o acompanhamento dessas crianças ao longo do período escolar, sempre em parceria com a família e a escola, será a forma mais efetiva de promover o desenvolvimento da comunicação. Ao longo dos anos escolares, outras intervenções podem ser necessárias, mas dependerão do desenvolvimento da própria criança como resposta à intervenção fonoaudiológica realizada. Cabe destacar também que o início precoce de reabilitação minimizará sequelas, principalmente o fracasso escolar.

Para ilustrar a importância do contexto educacional na criança com DEL, cabe citar uma pesquisa recente de nosso laboratório, que analisou o impacto do DEL e do tipo de escola (privada ou pública) nos diferentes componentes da linguagem de crianças com idade de 4 a 6 anos. Os dados do estudo mostraram que, em crianças com DEL oriundas de escola pública, o impacto das alterações linguísticas tende a ser mais abrangente, ou seja, atinge diversos subsistemas da linguagem, os quais se apresentam de maneira mais grave do que o observado em crianças com DEL originárias de escola privada, mostrando, assim, o efeito que o meio educacional pode exercer nas manifestações observadas nestas crianças. Tal dado apenas reforça a importância de uma política de orientação escolar e formação dos professores para que se possa ter um melhor manejo dessas crianças na educação infantil, como já é observado em países como Espanha, Reino Unido e Chile.

É comum que as crianças com DEL enfrentem dificuldades na socialização com com seus pares, uma vez que sua fala costuma não ser entendida pelos colegas.

É comum que as crianças com DEL enfrentem dificuldades na socialização com com seus pares, uma vez que sua fala costuma não ser entendida pelos colegas.

No que se refere à inserção da criança com DEL no ensino fundamental I, o desafio mostra-se ainda maior, uma vez que, além dos prejuízos já encontrados na expressão oral da linguagem, essas crianças também apresentarão dificuldades importantes no processo de aquisição e desenvolvimento da linguagem em sua modalidade escrita. É muito comum que essas crianças manifestem dificuldades contundentes ao longo da escolarização, o que pode levar a graves dificuldades em sua conduta sócio-adaptativa podendo culminar, até mesmo, com a evasão escolar.

Assunto pouco debatido

É importante ressaltar que, no Brasil, as alterações específicas de linguagem ainda são pouco conhecidas e discutidas tanto no meio acadêmico quanto educacional. É necessário ampliar essa discussão para que essas crianças possam ter maior apoio desde o início da sua vida escolar/social, além da possibilidade da identificação precoce, que leva à uma conduta muito mais assertiva e eficiente.

Não temos no Brasil políticas educacionais exclusivas para crianças com DEL, uma vez que as alterações apresentadas por essas crianças não estão listadas no rol de alterações que regulamentam a educação especial (Lei 9.394/96). Tal fato, somado à falta de conhecimento dos professores sobre o DEL, bem como condutas inadequadas e encaminhamentos equivocados, acarretam em ainda mais dificuldades na vida escolar dessas crianças, dificultando seu processo de escolarização e, consequentemente, seu futuro profissional.

Somente com a ampliação da discussão sobre as crianças com DEL em contexto escolar, elas poderão receber atenção mais individualizada e ter acesso a estratégias que potencializem a sua capacidade de aprendizagem e a apropriação do código escrito. O desenvolvimento de políticas educacionais que visem a formação de professores e equipe escolar para o manejo da criança com DEL em fase de alfabetização se faz extremamente necessário, pois, desta forma, os professores terão maiores condições de lidar com essas crianças em sala de aula e elas, por sua vez, terão suas capacidades valorizadas e respeitadas, podendo lograr maior êxito no seu percurso escolar.

As alterações específicas de linguagem e, principalmente o DEL, são quadros muito comuns no desenvolvimento infantil e, consequentemente, sua presença na escola é muito maior do que se imagina. Devido à falta de conhecimento de suas manifestações e características, as crianças com DEL correm o risco de não receberem o encaminhamento e o tratamento adequados tanto em âmbito clínico como educacional, o que pode implicar em prejuízos contundentes em toda sua vida social, acadêmica e profissional. Sendo assim, urge o desenvolvimento de políticas que objetivem a adequada inserção e manejo da criança com DEL tanto na educação infantil como no ensino fundamental.

 

Sugestões para Leitura

Befi-Lopes DM, Giusti E, Gândara JP, Puglisi ML. Avanços no diagnóstico diferencial dos Distúrbios Específicos de Linguagem. IN: Marchesan IM, Silva HJ, Tomé MC. Tratado das Especialidades em Fonoaudiologia. 1 ed. São Paulo: Guanabara Koogan, 2014.

Gândara JP, Befi-Lopes DM. Tendências da aquisição lexical em crianças em desenvolvimento normal e crianças com Alterações Específicas no Desenvolvimento da Linguagem. Rev. soc. bras. fonoaudiol.  2010;  15( 2 ): 297-304.

Hage SRV, Rodríguez VMA. Distúrbio Específico de Linguagem – aspectos clínicos e educacionais. IN: Marchesan IM, Silva HJ, Tomé MC. Tratado das Especialidades em Fonoaudiologia. 1 ed. São Paulo: Guanabara Koogan, 2014.

Nicolielo AP, Fernandes GB, Garcia VL, Hage SRV. Desempenho escolar de crianças com Distúrbio Específico de Linguagem: relações com habilidades metafonológicas e memória de curto prazo. Rev. soc. bras. fonoaudiol. 2008; 13( 3 ): 246-250

Puglisi ML, Befi-Lopes DM. Impacto do distúrbio específico de linguagem e do tipo de escola nos diferentes subsistemas da linguagem. CoDAS 2016  28( 4 ): 388-394.

Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional

 

Sobre o Autor

Debora M. Befi-Lopes e Aparecido José Couto Soares

Debora M. Befi-Lopes é professora associada do Curso de Fonoaudiologia da FMUSP e coordenadora do Serviço de Atendimento a Crianças com DEL do Curso de Fonoaudiologia da FMUSP. Aparecido José Couto Soares é técnico especializado de Nível Superior e Fonoaudiólogo do Curso de Fonoaudiologia da FMUSP, alem de supervisor do Serviço de Atendimento a Crianças com DEL do Curso de Fonoaudiologia da FMUSP.

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