Estudo de dez anos com “videogame” reduziu o risco de demência em idosos em 29%

O treino cerebral computadorizado, espécie de “videogame” cognitivo, se mostrou a primeira intervenção a reduzir o risco de demência entre idosos. O resultado é de um estudo de mais dez anos usando a técnica com quase 2.800 pessoas. A abordagem também pode ser usada na educação, para melhorar as habilidades cognitivas e facilitar o aprendizado de pessoas com dificuldades de atenção e memória.

A pesquisa, publicada no periódico “Alzheimer’s & Dementia: Translational Research & Clinical Interventions”, acompanhou idosos entre 74 e 84 anos envolvidos em três tipos diferentes de treinamento cognitivo: um grupo recebia instruções e praticava exercícios de memória; um segundo, exercícios de raciocínio lógico; e o terceiro, treinamento computadorizado individual focado em velocidade e processamento visual.

Os grupos participaram de 10 sessões iniciais de treinamento de cerca de uma hora durante as primeiras seis semanas do experimento.

Os participantes passaram por testes cognitivos no começo do estudo, seis semanas depois, e após dois, três, cinco e dez anos. Alguns também fizeram mais treinos 11 meses e 35 meses após o início do estudo.

Veja um dos exercícios aplicados

 

Ao olhar os resultados das análises, os pesquisadores viram que o grupo que recebeu o treino computadorizado teve em média 29% menos risco de demência que o grupo controle, sendo que os participantes que fizeram mais sessões de treino tiveram maior proteção. O treino computadorizado focou tarefas específicas de melhoria de fala e acurácia visual com exercícios de atenção.

“Precisamos delinear melhor o que faz com que esses treinos computadorizados sejam efetivos e outros não”, diz Jerri Edwards, autor do estudo e pesquisador da University of South Florida. “Também precisamos investigar qual é a quantidade apropriada de treinamento para obter os melhores resultados e o melhor timing da intervenção. Dados de estudos anteriores indicam que o treinamento de velocidade é efetivo entre idosos sem ou com comprometimento cognitivo leve, mas é importante entender que é uma prevenção e não um tratamento.”

O neurocientista e psiquiatra Rogerio Panizzutti (UFRJ), pesquisador associado da Rede CpE, comenta o potencial que o estudo tem para aplicação na educação. “Os exercícios digitais podem induzir neuroplasticidade e beneficiar as pessoas. Isto tem sido estudado também no contexto da educação, principalmente em crianças e jovens que têm algum tipo de déficit.”

Panizzutti aponta que os treinos podem ter servido como uma espécie de fisioterapia para o cérebro dos participantes do estudo, permitindo que o órgão se mantivesse “em forma” para fazer outras atividades estimulantes que mantiveram a cognição. “É difícil imaginar que as horas de exercícios feitas 10 anos antes foram diretamente responsáveis por esta proteção contra a demência”, pondera. “Provavelmente com o treino de velocidade de processamento estes indivíduos ficaram mais capacitados a manterem a sua saúde cerebral durante a década que se seguiu, através, por exemplo, do engajamento em atividades cognitivamente desafiadoras.”

Outros estudos já mostraram que este treino específico foi capaz de melhorar o campo de visão útil, permitindo que os participantes mantivessem suas capacidades necessárias para atividades cotidianas, como, por exemplo, dirigir automóveis.

O grupo de pesquisa de Panizzutti trouxe a técnica do estudo destes exercícios de treino cerebral computadorizado para o Brasil para usá-la com idosos e também adultos com esquizofrenia e transtorno bipolar. “Esses grupos apresentam variadas dificuldades de aprendizado, desde mais lentidão no processamento das informações sensoriais (como a visão e audição), até problemas com atenção, memória e resolução de problemas”, comenta. “O treino computadorizado pode ajudar no aprendizado e contribuir para a (re)inserção desses indivíduos com sucesso na sociedade”

 

Sobre o Autor

Sofia Moutinho

Jornalista carioca guiada pela curiosidade e fascinada pela ciência. Especializada na cobertura de ciência, saúde, tecnologia e meio ambiente, atuou como repórter da Ciência Hoje durante maior parte de sua carreira. Na Rede CpE, toca a assessoria de imprensa e a produção de conteúdo.

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