Hoje escreverei sobre um dos temas que mais tem atraído minha atenção nos últimos anos na área de educação básica: a educação infantil, em especial de crianças de famílias pobres, e seus benefícios tardios. Não custa lembrar que sou professora de bioquímica e que leio sobre educação quase como um lazer (e prazer!).

Meu contato com o tema se deu quando assisti, há cerca de cinco anos, a uma palestra na Academia Brasileira de Ciências proferida pelo nobelista (Prêmio Nobel em Ciências Econômicas de 2000) James Heckman, grande pensador e formulador do tema que hoje abordo para vocês.

A palestra foi um exemplo de interdisciplinaridade: ele mostrava imagens de ressonância magnética funcional do cérebro de crianças, entremeadas com equações, tabelas e gráficos complicadíssimos de economia, mas que foi destrinchando lentamente e passando sua mensagem. Mas que mensagem foi essa que ele nos apresentou?

Heckman combinou estudos da neurociência e psicologia, que mostram que o cérebro humano se desenvolve de forma progressiva (as células se multiplicam e estabelecem sinapses – conexões entre os neurônios por onde passam os sinais químicos), desde o período pré-natal até a idade adulta, e que esse desenvolvimento, além de ser ditado pela genética de cada indivíduo, recebe fortes influências do ambiente e da experiência individuais de cada um. Ou seja, nossas vivências moldaram e moldam o que somos e o que seremos! Mais do que isso, embora o desenvolvimento do cérebro se dê durante toda a nossa vida, existem períodos onde o cérebro está mais sensível e propício para desenvolver e consolidar certas habilidades e competências que vão reger nossa vida futura (sucesso no trabalho, na vida afetiva, nossa capacidade de fazer amigos, nossa índole etc).  As competências que estamos tratando aqui são as competências cognitivas, linguísticas, sociais e emocionais, moldadas ao longo de toda a vida, mas, em especial, na infância, devendo-se destacar, ainda, que existe uma forte interdependência no desenvolvimento das mesmas. Falaremos dessas competências mais abaixo.

Isso nos leva a concluir que crianças que recebem desde cedo e na hora certa certos estímulos de seus pais ou cuidadores terão os desenvolvimentos cognitivo e sócio-emocional mais proeminentes do que crianças que não os recebem. Isso nos remete a pensar nas crianças crescidas em famílias pobres e desfavorecidas onde os recursos e estímulos são limitados ou escassos.

E foi aí que Heckman fez sua grande contribuição ao calcular, como economista, qual a taxa de retorno de uma unidade monetária investida na educação de crianças pequenas (até 6 anos) em relação a esse mesmo investimento realizado em outra faixa etária (por exemplo, no ensino fundamental ou médio). Cabe aqui mencionar que Heckman não estava somente preocupado em analisar as habilidades cognitivas (QI, por exemplo) das crianças crescidas em famílias mais ou menos abastadas. Ele sempre se preocupou em destacar as habilidades não cognitivas como fundamentais para garantir o sucesso futuro de um indivíduo, habilidades que foram por ele denominadas “Big Five” (penso que hoje são mais que cinco, mas me aterei as que ele enumerou): 1. Abertura a novas experiências, 2. “Conscienciosidade” (organização, responsabilidade e capacidade de trabalhar com afinco), 3. Sociabilidade, 4. Agradabilidade (espírito colaborativo, não egoísta) e 5. Estabilidade Emocional. Dá para imaginar que, no mundo de hoje, não basta apenas conhecer profundamente um determinado assunto para ser bem sucedido profissionalmente. Conhecer bem o seu tema é muito importante, mas estar aberto ao novo, ser sociável, agir de forma responsável e ética para com o próximo e com o ambiente, ter motivação, persistência, tenacidade são quesitos igualmente importantes. Heckman mediu isso do ponto de vista econômico, conforme mostrarei mais à frente.

Muitos dos testes que medem o desempenho das crianças e dos adolescentes se baseiam exclusivamente nas habilidades cognitivas, ou seja, em quanto cada um sabe sobre aquela disciplina ou matéria, sem maiores preocupações com essas habilidades ou competências ditas sócio-emocionais e que são fundamentais para o sucesso do futuro adulto. Alguns testes como o PISA já estão avaliando essa competências em reconhecimento à importância das mesmas.

Existem alguns estudos formidáveis realizados nos Estados Unidos que acompanharam por décadas as trajetórias de crianças oriundas de famílias pobres que participaram dos estudos e as comparou com as trajetórias de crianças de mesma origem social, mas que não receberam as intervenções propostas. Até onde acompanhei, estudos semelhantes estavam em curso no Brasil, mas, confesso, não sei agora o estágio em que se encontram. Fico devendo essa informação a vocês. Passo agora a descrever alguns desses estudos americanos de forma breve e que serviram de base para as teorias de Heckman:

1. Perry Pre-School Program – O programa começou em 1962 em Michigan e envolveu 123 crianças de 3 e 4. As crianças ficavam na escola metade do dia recebendo estimulação adequada. À tarde, as crianças recebiam a visita dos professores em suas casas, quando necessário. Aos 10 anos, as crianças do grupo Perry (que receberam a intervenção) não tinham QI muito diferente das crianças do grupo controle. No entanto, quando se olhou cada um dos indivíduos aos 40 anos, foram claros os benefícios daqueles que passaram pelo Perry. As taxas de escolaridade, os salários, a propriedade de residências foram maiores no grupo Perry, ao passo que o recebimento de auxílios de seguridade social, a taxa de criminalidade, gravidez precoces foram menores nesse grupo. O programa certamente foi caro, já que envolvia qualificação e treinamento de pessoas, compra de materiais, acompanhamento dos indivíduos por décadas etc. Mas, quando se calcula a taxa de retorno, ou seja, quanto se economizou com a menor criminalidade, a menores taxa de evasão escolar, os maiores salários recebidos pelos participantes e tudo mais de bom que se alcançou com a intervenção correta na infância daquelas crianças, se chega a uma taxa de retorno de 1:8. Era isso que Heckman mostrava nas inúmeras tabelas e gráficos que apresentou na Academia Brasileira de Ciências: a cada dólar investido na educação dos pequenos, retornam 8 dólares para a economia do país.

2. Abecedarian –  Começou em 1972 na Carolina do Norte. Do programa participaram 111 crianças com cerca de poucos meses até 5 anos, todas oriundas de famílias americanas pobres. Nesse caso a intervenção era o dia todo por cinco dias na semana. As crianças receberam suplemento nutricional, assistência médica e outras vantagens também oferecidas ao grupo de crianças controle, para que não houvesse diferença no resultado e que permitisse que também as crianças do grupo controle fossem de alguma forma atendidas em suas necessidades básicas.  Da mesma forma, o estudo foi muito caro, mas revelou uma taxa de retorno de 2,5, ou seja, para cada dólar investido há um retorno de 2,5 dólares, medidos através do que eu enumerei acima (menor criminalidade, menor taxa de repetência, maiores salários etc.). A esse estudo se faz uma crítica que é saber se seu sucesso se deveu ao estágio precoce em que foi implementado (bebês) ou se à intensidade com que as crianças receberam a intervenção (o dia todo por alguns anos).

Heckman comparou esses estudos (há ainda o Estudo de Chicago de 1985, que não lhes descrevi aqui) com políticas públicas implementadas mais tarde quando a criança está no ensino fundamental ou médio. E os resultados são contundentes: os maiores retornos se dão quando os investimentos são feitos na primeira infância! Ou seja, é preciso estimular o cérebro das crianças na idade certa e de forma correta. Investir mais tarde torna mais difícil correr atrás do prejuízo e, com isso, as crianças crescidas em famílias carentes manterão essa diferença de desempenho em relação às crianças crescidas em famílias ricas por toda a vida escolar. No entanto, cabe ressaltar que se deve, certamente, investir nas demais fases da vida escolar das crianças, até porque as que recebem os estímulos corretos na infância, se chegarem mais tarde em uma escola bem equipada e com professores bem formados, só se beneficiarão ainda mais da educação de qualidade que porventura venham a receber.

Face ao que acabo de lhes contar, acho que investir na educação das nossas crianças pequenas, em especial das de famílias vulneráveis, é um grande investimento que podemos fazer. É um ato de justiça social e equidade!

No momento de tantas mudanças políticas no país, talvez o maior e mais qualificado investimento seja esse: a educação das crianças pequenas. Qualquer que seja o formato do estudo, a taxa de retorno futuro é significativa. Heckman nos mostrou isso. A ciência nos mostra isso! Tomara que nossos políticos, que andam tão céticos em relação à ciência (será que as mudanças climáticas estão, de fato, acontecendo e são elas causadas pela ação humana??!!), tomem ciência (literalmente…) acerca desse dados e implementem políticas públicas como essas de grande retorno social!

(Débora Foguel para o jornal O Globo, 04/02/19)

Sobre o Autor

Debora Foguel

Graduada em Biologia em pela UFRJ (1987), com mestrado em Bioquímica pelo Instituto de Química – UFRJ (1991) e doutorado em Bioquímica pelo Instituto de Química- UFRJ (1993). Fez doutorado sanduíche na Universidade de Illinois (1991-1992). Atualmente, é professora Titular da UFRJ/ Instituto de Bioquímica Médica. Membro da Academia Brasileira de Ciências e Comendadora pela Ordem do Mérito Científico.

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