Neurocientista que estuda o papel do sono no aprendizado pede por mais evidências científicas nas políticas educacionais e destaca importância de envolver as crianças nas descobertas

Durante a palestra de abertura do 2º Encontro Anual da Rede Nacional de Ciência para Educação (CpE), no último dia 16, o neurocientista Sidarta Ribeiro (UFRN) defendeu uma revolução nos moldes de ensino. O ideal, segundo ele, seria se basear nas evidências científicas para tomar decisões sobre educação e igualar oportunidades, diminuindo a desigualdade no país.

Um dos exemplos dados pelo pesquisador está em sua própria área de estudo: o sono. Ribeiro estuda há décadas como o sono impacta o aprendizado de crianças e adultos. Suas pesquisas apontam que dormir bem tem impacto positivo no aprendizado, memória e desempenho escolar. Segundo ele, intervenções simples, como promover um sono de qualidade, têm poder transformador na educação. 

O neurocientista comentou resultados recentes de estudos de seu grupo de pesquisa, a serem publicados em breve, que indicam o poder do sono. Em um teste conduzido em uma escola, os pesquisadores separaram crianças em dois grupos: um que dormiu após uma aula curta sobre neurociências e outro que não cochilou. Uma prova sobre o conteúdo ensinado foi aplicada aos dois grupos dois dias após o experimento. Nesse teste, os resultados entre os grupos não foi muito diferente. 

Porém, em uma prova aplicada cinco dias depois, as crianças que dormiram tiveram um resultado melhor, sugerindo que o sono pode ajudar na duração da memória, consolidando a informação aprendida por mais tempo.

Além disso, segundo Ribeiro, as crianças que dormiram mais de 30 minutos após a aula tiveram um resultado melhor do que aquelas que dormiram até 30 minutos ou que não dormiram. 

Em outro experimento, os pesquisadores usaram ferramentas auditivas e táteis para alfabetizar, saindo do padrão de estímulo dos sistemas visuais, e também utilizaram cochilos com a intenção de prolongar a memória do aprendizado. Segundo Ribeiro, as crianças treinadas dessa maneira tiveram um aprendizado mais rápido que aquelas cujo ensino foi comum, demorando apenas três semanas para aprender aquilo que demora, geralmente, até três anos. O efeito do sono de prolongar a memória também se mostrou neste estudo.

Ensino eficaz

Para o neurocientista, o sono é um dos vários fatores que podem ajudar a melhorar o ensino e igualar as necessidades fisiológicas dos alunos, por aumentar a capacidade de processamento de informações. Mas é necessário investir em outras ações para tornar o ensino mais eficaz.

“A educação precisa passar por uma revolução como a agricultura passou: no lugar de adicionar insumos, ciclar. Utilizar o que temos de forma correta: boa alimentação, sono, exercícios físicos, aulas boas e mais curtas, testes… Talvez assim vamos finalmente conseguir colocar as peças no lugar, de maneira muito mais eficiente do que estamos fazendo hoje”, disse o professor.

Ribeiro destacou ainda a importância de envolver as crianças no compartilhamento dessas informações providas pela ciência. “A coisa mais eficaz na educação é fazer a criança saber os benefícios das intervenções propostas, como o sono, para a vida dela, fazer essa metacognição.”

Sobre o Autor

Sofia Moutinho

Jornalista carioca guiada pela curiosidade e fascinada pela ciência. Especializada na cobertura de ciência, saúde, tecnologia e meio ambiente, atuou como repórter da Ciência Hoje durante maior parte de sua carreira. Na Rede CpE, toca a assessoria de imprensa e a produção de conteúdo.

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