Pesquisa brasileira encontra no cabelo de jovens expostos à violência altos níveis de hormônio do estresse que podem aumentar o risco de problemas psicológicos

Jovens expostos à violência têm maior risco de desenvolver problemas psicológicos ao longo da vida. Um fator chave nessa relação é o estresse causado por essas experiências. Um grupo de cientistas brasileiros liderados pelo pesquisador da Rede CpE Augusto Buchweitz (PUCRS) olhou para esse problema medindo o nível de hormônios do estresse acumulados no cabelo de jovens vítimas de violência no Brasil. Eles observaram altos níveis da substância nos jovens mais vitimizados.

O cortisol é um hormônio liberado no organismo durante situações de estresse. Ele afeta vários mecanismos naturais do corpo humano, como o nível de açúcar no sangue e o metabolismo de gordura, além do sistema imune e o cérebro. Estudos anteriores mostram que níveis elevados do hormônio podem inibir a formação de novos neurônios, células do cérebro, e intoxicar essas células. Altos níveis da substância também estão associados com maior risco de problemas psicológicos.

Os pesquisadores mediram a concentração de cortisol no cabelo de 83 jovens de 7 a 14 anos do Sul do país que vivem em áreas urbanas com desvantagem social. As amostras foram colhidas em escolas públicas e um centro de atendimento psicológico.

Eles também mediram a exposição à violência nesses jovens, usando questionários que perguntavam sobre situações como exposição ao crime, maus tratos, maus tratos na família, violência sexual e testemunho de situações de violência. Eles também usaram questionários para medir a saúde mental dos participantes.

Ao comparar o nível de cortisol encontrado em 1 centímetro de fio de cabelo, o que representa um mês na vida dos indivíduos, com os dados sobre violência e saúde mental, os pesquisadores viram uma forte associação.

“Identificamos uma associação entre qualidade e quantidade de experiências de adolescentes brasileiros com níveis mais elevados de cortisol resultantes do estresse”, diz Augusto Buchweitz, autor do estudo publicado no International Journal on the Biology of Stress.  “Também vimos maior risco para transtornos mentais nos jovens com maior concentração da substância.”

Estudos anteriores do mesmo grupo já haviam identificado que as experiências de violência afetam também o funcionamento do cérebro.

Os jovens estudados que reportaram ter sofrido maus tratos durante a vida tiveram maiores níveis de cortisol no cabelo em média 43% mais elevados que os que não sofreram esse tipo de violência.

O estudo faz parte de um projeto maior, financiado pelo Banco Internacional de Desenvolvimento (BID) que busca identificar uma associação entre a exposição à violência e os riscos para a saúde e desenvolvimento dos adolescentes.

“Em outros estudos mostramos também o efeito do estresse na habilidade dos adolescentes de fazer a leitura das emoções de outras pessoas”, complementa Buchweitz. “Adolescentes mais expostos à violência têm mais dificuldade de manter a atenção e de identificar emoções. Esses estudos ressaltam a importância de melhorarmos os ambientes de aprendizagem, em combinação com outros fatores que influenciam no sucesso da educação e os quais precisamos melhorar no Brasil.”

Sobre o Autor

Sofia Moutinho

Jornalista carioca guiada pela curiosidade e fascinada pela ciência. Especializada na cobertura de ciência, saúde, tecnologia e meio ambiente, atuou como repórter da Ciência Hoje durante maior parte de sua carreira. Na Rede CpE, toca a assessoria de imprensa e a produção de conteúdo.

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