Investir na inteligência emocional e no gerenciamento do tempo pode ser uma alternativa para o professor lidar com a sobrecarga de trabalho provocado pelo novo cenário

 

A pandemia sobrecarregou a rotina de muitos professores. As horas do dia do professor passaram a ser divididas entre a preparação de aulas e materiais de apoio para o ensino remoto, o atendimento aos alunos, e à rotina doméstica. Mesmo quem se considera multitarefa pode sofrer com esse excesso de trabalho e preocupações. 

O trabalho em casa por causa da COVID-19 impacta os professores de diferentes formas. A professora da UFRJ Miriam Struchiner, pesquisadora associada da Rede CpE , vem acompanhando a adaptação ao novo contexto de professores das redes pública e privada do Rio de Janeiro  e relata que a queixa mais comum é a de sobrecarga emocional. “Há um conjunto de coisas acontecendo e fica difícil separar o que é a carga de trabalho em si – de ter que passar horas na frente do computador preparando aula, em reuniões, atendendo alunos – de outras demandas emocionais, afetivas e de cuidado de familiares”, pontua. 

O contexto online parece multiplicar a carga de trabalho, segundo relatam especialistas em Ensino à Distância (EAD). “Embora muita gente não acredite, o trabalho para EAD é muito maior do que o trabalho para o ensino presencial. Além de preparar as aulas, os professores têm que acompanhar as tarefas de cada aluno na plataforma e dar um feedback em tempo ideal de 24 horas para que os alunos não evadam o curso”, afirma Patrícia Behar (UFRGS), pesquisadora associada da Rede CpE. Nas primeiras semanas de isolamento social, Patrícia chegou a trabalhar 12 horas por dia adaptando os cursos ministrados presencialmente na Faculdade de Educação da UFRGS para o formato de ensino remoto virtual. 

A pandemia traz à tona antigos problemas de jornadas de trabalho excessivas e sobrecarga mental já enfrentados pelos professores brasileiros. Uma pesquisa feita com 258 professores de escolas estaduais de São Paulo, em 2008, revelou que 96,5% deles consideravam o trabalho na escola estressante. A mesma pesquisa sugere que a rotina na escola levou ao aparecimento de transtornos mentais em 20,9% dos entrevistados, e que 74,1% faziam uso de medicamentos antidepressivos. 

Ferramentas virtuais: autonomia e insegurança

Para Struchiner, o ensino remoto emergencial tem se caracterizado pela autonomia do professor. Como as redes pública e privadas ainda estão se organizando para lidar com a nova situação, os professores precisam coordenar suas próprias atividades de ensino remoto. Apesar de ter mais liberdade, a pesquisadora avalia que esse novo modelo exige mais do professor. O tempo de interagir com os alunos por meio de plataformas e tecnologias virtuais é maior do que o atendimento dos alunos no ensino presencial.

Além disso, é preciso levar em conta que muitos professores não têm familiaridade com plataformas virtuais de ensino, ou seja, ainda precisam aprender a lidar com essa tecnologia. Segundo dados da Pesquisa TIC Educação de 2018, apenas 42% dos professores brasileiros cursaram alguma disciplina sobre uso de tecnologias durante sua graduação e 22% participaram de algum curso de formação continuada sobre computadores e internet adaptados às atividades de ensino. Na Prova Brasil de 2017, aplicada pelo INEP, 67% dos docentes declararam precisar de aperfeiçoamento profissional para o uso pedagógico de tecnologias educacionais.

A falta de preparo para usar ferramentas de ensino remoto pode gerar ansiedade no professor, segundo avalia Struchiner. “Muitos não sabem como desenvolver uma atividade online, porque não tiveram treinamento para isso. Eles se sentem inseguros sobre como vão se comunicar com seus alunos, estabelecer relações de forma que possam dar continuidade às atividades”, comenta.

Nas últimas semanas, a insegurança tem sido companheira da professora Carlina Santos,  afiliada à Rede CpE. Enquanto ainda espera a orientação sobre o ensino remoto da Secretaria Municipal de Educação de Campos de Júlio (MT), onde atua, Carlina se preocupa com o modo como essas atividades vão chegar aos alunos, já que a maioria mora na zona rural e não tem acesso a internet de qualidade. “Ainda há muitas dúvidas sobre como iremos recuperar e atender nossos alunos. Mesmo que sejam disponibilizadas apostilas e plataformas virtuais, não poderemos garantir que iremos atingir o nível de qualidade de ensino para todos, infelizmente”.

Para a professora, o trabalho é ainda mais difícil de executar a distância, pois ela atende crianças em fase de alfabetização com dificuldades de aprendizagem. “Desenvolvo um trabalho individualizado, que me aproxima fisicamente dos alunos, segurando suas mãos, auxiliando na coordenação motora, incentivando com um sorriso. Tenho como prática diária o abraço e o beijo na chegada e saída dos meus alunos”, relata a professora. A sua estratégia está sendo se preparar para o retorno das atividades presenciais, quando isso for possível. 

Estratégias para lidar com a sobrecarga de trabalho

Investir na inteligência emocional e no gerenciamento do tempo pode ser uma alternativa para o professor lidar com a sobrecarga de trabalho provocado por esse novo cenário. Behar sugere ao professor colocar um limite de horas de trabalho por dia, dividindo esse tempo com atividades domésticas e com diversão junto à família. Saber pedir ajuda aos filhos e companheiro ou companheira para lidar com as tarefas da casa também pode tornar a rotina do professor mais leve. 

Para as atividades de ensino remoto, Struchiner sugere ao professor repensar o que é fundamental para os seus alunos – e partir disso para o planejamento das aulas. Para ela, o momento é propício para o profissional romper com a reprodução do ensino tradicional, se superar e se desafiar. Segundo Miriam, essa atitude pode lhe trazer um sentimento de recompensa e gratificação, fazendo-o se sentir feliz com o próprio trabalho. 

A sugestão da professora Carlina Santos é que os professores utilizem o período também para se preparar emocionalmente para o retorno às aulas. Quando isso acontecer, o desafio será dobrado, pois eles vão ter que lidar com alunos psicologicamente abalados por causa das perdas humanas da pandemia. Ler bons livros e tirar um tempo para cuidar de si durante o isolamento social podem ajudar o professor que não está desenvolvendo atividades remotas a aliviar as tensões momentâneas e se fortalecer para encarar os próximos meses.

 

Sobre o Autor

Natalia Flores

É jornalista de ciência freelancer e pesquisadora de Divulgação Científica. Tem Doutorado pela Universidade Federal de Pernambuco e colabora com projetos de divulgação científica.

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