Pesquisa aponta que grande parte dos estudantes brasileiros usa técnicas pouco eficientes de estudo, como reler e sublinhar. Saiba como estimular estudantes a aprender melhor e aproveitar mais o tempo de estudo

 


Passar horas relendo anotações, grifando o livro, fazendo resumos. Soa familiar? As técnicas de estudo mais comuns entre brasileiros pré-universitários são também as menos eficientes, aponta pesquisa que ouviu 795 pessoas. O problema não se resume ao Brasil nem a estudantes de menor nível socioeconômico. Das escolas públicas brasileiras às universidades de elite americanas, os alunos estão usando mal seu tempo. “Ser mais rico ou ter acesso a uma escola de nível melhor não protege a pessoa de usar técnicas ruins. A gente precisa ensinar todo mundo a estudar”, afirma Sabine Pompeia, da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), uma das autoras e pesquisadora associada da Rede CpE. 

O estudo buscou replicar conceitualmente uma pesquisa de 2009, que investigou quais as estratégias preferidas entre alunos americanos, elencando 11 delas: reler anotações ou o livro; fazer exercícios já tendo a resposta de antemão; destacar/grifar o texto; resumir; praticar o lembrar (testar a si próprio); pensar em exemplos da vida real; reescrever anotações; memorizar; usar mnemônicos ( símbolos, palavras ou frases relacionadas com o assunto que se pretende memorizar, como frases e músicas para decorar fórmulas e datas); estudar em grupos; usar flashcards (cartões com informações para ajudar a memorização). Neste e em outros estudos, a técnica mais citada era reler.

Já na pesquisa realizada com brasileiros, a proposta era entender se um público mais diverso apontaria estratégias de estudo distintas, e como esse comportamento está relacionado ao sexo e nível socioeconômico do estudante. 

“Será que os brasileiros que têm acesso a escolas mais fracas e menos orientação dos pais estão estudando ‘pior’?”, questiona Sabine. A descoberta surpreendeu os pesquisadores porque, independente da escola frequentada ou do nível de escolaridade dos pais, os estudantes utilizam sobretudo técnicas ineficientes, como reler conteúdo; fazer exercícios já tendo a resposta em mãos; destacar o texto; e resumir. 

Em relação ao sexo, houve apenas uma diferença notável: mulheres usam com mais frequência a estratégia de destacar o texto. “Ela só é efetiva para aqueles que têm domínio da matéria e já sabem o que é importante”, explica Roberta Ekuni, da Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), que também conduziu o estudo.

Raízes do problema

Afinal, por que estudamos tão mal? Para começar, não aprendemos como fazer isso. “Cada indivíduo tem que descobrir sozinho como estudar, não existe uma orientação de pais e professores”, explica Sabine.

Outro ponto importante é que algumas das técnicas mais populares entre os alunos envolve revisitar o conteúdo, o que dá uma sensação de familiaridade ao estudante. “A gente confunde esse senso de familiaridade com dominar a matéria e acha que, numa prova, vai conseguir lembrar do que leu”, complementa a professora.

Por outro lado, quando o aluno faz exercícios sem ter a resposta ou tenta recordar o conteúdo, acontece o oposto. Roberta explica: “Quem se testa tem um julgamento mais preciso de sua aprendizagem. Ele lembra mais do conteúdo, mas tem a impressão de que sabe menos”. Assim, testar-se pode causar certa frustração no aluno, o que também pode explicar por que esta é uma técnica menos utilizada.

Investir em formas de estudar que envolvam raciocínio e driblar a frustração do erro valem a pena, garantem as pesquisadoras. “Estudar 5h relendo é perda de tempo. O ganho é minúsculo. É melhor estudar 2h quebrando a cabeça e aproveitar o resto do tempo para descansar ou fazer outra coisa”, resume Sabine.

O QUE FUNCIONA?

Algumas estratégias de estudo podem ser usadas de diversas formas por professores e alunos. As mais importantes, segundo as pesquisadoras, são a Prática do Lembrar, o espaçamento/distribuição do conteúdo e o estudo intercalado. Conheça melhor cada uma delas:

Prática de lembrar

O que é? Toda técnica que envolve recordar o conteúdo sem consulta.
Por que funciona? Porque treina o cérebro na estratégia que ele usará durante uma prova ou na aplicação do conhecimento. “Quando você estuda para ‘tirar’ a informação da cabeça, você fortalece a rede neural, o caminho para encontrar essa informação, então essa memória vai durar muito mais tempo”, explica Roberta.
Como fazer: exercícios, quizzes, provas, simulados, trabalhos em grupo, desenhar esquemas ou mapas mentais, criar perguntas sobre o conteúdo, pensar em exemplos da vida real etc. Qualquer uma dessas práticas deve envolver um esforço do aluno em relembrar o conteúdo. Sobre os exercícios, Sabine reforça que não é preciso que o professor corrija as respostas de cada aluno, ele pode fazer uma correção coletiva, pedir que um aluno confira os exercícios do colega etc. Também é importante não penalizar o erro, já que ele faz parte do processo de aprendizagem.

Espaçamento/Distribuição do conteúdo

O que é? Distribuir o conteúdo ao longo do tempo, retomando-o depois de certos períodos.
Por que funciona? Porque, se o mesmo conteúdo é trabalhado diversas vezes ao longo de um período, o cérebro “entende” que aquela informação é relevante e faz as alterações estruturais necessárias para guardá-la.
Como fazer? Não blocar os conteúdos, distribuí-los ao longo do semestre/ano. Pode ser misturada à Prática de Lembrar.

Estudo intercalado

O que é? Intercalar atividades de diferentes conteúdos de uma mesma disciplina.
Por que funciona? Porque evita que o aluno tenha uma visão compartimentalizada do conteúdo e faça exercícios de forma “automática”, e o estimula a estabelecer conexões entre assuntos.
Como fazer? Quando pedir exercícios ou outros tipos de trabalho, intercalar com exercícios que abordem conteúdos anteriores. No ensino de matemática, por exemplo, não propor uma série de exercícios que explorem só um conceito.

Leia mais:
Buscando na mente: prática de lembrar ajuda o aprendizado
Ciencia do aprendizado na prática

 

 

 

 

Sobre o Autor

Erica Teruel

Jornalista e educadora, cursa pós-graduação em Psicossociologia da Juventude e Políticas Públicas (FESP-SP) e desde 2013 atua em projetos no primeiro e terceiro setor relacionados a educação e juventude. 

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