Será que o ensino remoto é capaz de evitar possíveis atrasos cognitivos no desenvolvimento mental de crianças e jovens?

por Roberta Bocchi

O processo educacional formal é fundamental para o desenvolvimento cerebral humano, uma ruptura em sua linearidade pode representar atrasos no desenvolvimento mental de crianças e jovens. Por essa razão, a continuidade do processo, mesmo que de forma remota, é ponto básico para a garantia mínima de prosseguimento deste tão importante recurso humano.

É verdade que o contato social, a troca de olhares e a capacidade de entender o outro através de sutilidades percebidas apenas em uma educação presencial, ficam a desejar quando adotamos uma forma remota de ensino, mas é preciso garantir a continuidade educacional para que atrasos cognitivos graves não ocorram e possíveis danos possam ser reduzidos.

O processo educacional é capaz de provocar alterações na expressão genética dos educandos e estimular o que chamamos de neuroplasticidade. Esse conceito, também conhecido como plasticidade cerebral, teve origem a partir dos estudos desenvolvidos na biologia molecular e na Neurociência. Segundo o neurocientista Roberto Lent, neuroplasticidade é a “propriedade do sistema nervoso de alterar a sua função ou a sua estrutura em resposta às influências ambientais que o atingem”.

No ano de 2006, o neurocientista e laureado do Prêmio Nobel de Medicina Eric R. Kandel, demonstrou que a expressão genética e a plasticidade cerebral podem ser facilitadas pelo processo de aprendizagem. Segundo Kandel, podem ocorrer mudanças no comportamento e desencadeamento de alterações na expressão genética que “alteram as conexões   sinápticas, provocando   mudanças   estruturais, que mudam o padrão anatômico das interconexões entre as células do cérebro”. 

Construindo conhecimento

Partindo dessas definições, é possível entender que a Educação tem potencial para provocar alterações nos tipos de conectividades existentes na mente humana. Ação fundamental não só na formação do sujeito-aluno, mas também na formação da sociedade onde esse aluno está inserido. Talvez seja uma boa explicação para o que chamamos de função social da escola.

Nossos neurônios podem a todo momento modificar suas conexões, fortalecendo-as ou enfraquecendo-as.  Isso irá depender de uma série de fatores, sendo um deles e talvez o mais importante para a Educação, a estimulação externa.

O cérebro humano possui bilhões de neurônios, que podem se comunicar com milhares de outros neurônios, formando uma rede de informações que movem e determinam uma série de fatores da vida. Quanto mais se estimula um tipo de pensamento, o estudo de um determinado conteúdo ou uma única maneira de resolver problemas, mais forte essa conexão neural se torna e mais robusta se instala na memória.

Porém, não há uma única forma de resolver problemas e nem um único conteúdo a ser trabalhado, a vida oferece e exige muito mais que isso. É preciso pensar na ampliação desse conhecimento, na necessidade de estimular novas conexões neurais, novas possibilidades de aprendizagem. Do contrário, estaremos formando sujeitos de pensamentos limitados e aprisionados em modelos mentais pobres e por vezes ultrapassados.

No momento da preparação de um plano de aula, seja ele presencial ou de forma remota, que tenha como objetivo expandir o conhecimento do educando a respeito de um determinado tema, é fundamental ampliar a visão de mundo do aluno, criando situações de aprendizagem que incentivem a descoberta de novos caminhos, novos entendimentos, opiniões diversas, priorizando a estratégia de resolução do problema e não apenas a sua solução final.

Quanto mais se usa apenas uma conexão neural que se tornou ao longo do tempo mais robusta, para o entendimento do mundo, mais se limita a visão desse mundo. É preciso incentivar outras visões e outras conexões para ampliar o entendimento humano do sujeito-aluno. É fundamental promover conexões entre elementos que não estavam conectados anteriormente, mostrar as diversas possibilidades e experiências, proporcionar conhecimentos diferentes para que o educando adquira o poder da escolha.

O processo educacional é um dos principais responsáveis pela neuroplasticidade sadia de nossos pequenos brasileiros, dando espaço para o momento em que intensamente e libertariamente pensamentos, sentimentos e comportamentos são modificados.

O ensino remoto

A forma remota de ensino pode ser definida como uma transmissão online em tempo real das aulas que antes eram realizadas de forma presencial. É um importante recurso cognitivo para a continuidade do desenvolvimento cerebral dos estudantes em um momento como o atual, quando o isolamento social se tornou necessário. Mas exige alguns cuidados:

  • Entender que o ensino remoto está distante de ser a solução, mas pode contribuir para a redução de possíveis danos cognitivos;
  • O uso de novas tecnologias deve ser visto como um meio e não como um fim;
  • É preciso cuidar para que a maioria dos usuários tenham acesso tecnológico adequado, evitando acentuar ainda mais as desigualdades sociais;
  • É necessário preparar aulas dinâmicas e com tempo adequado ao ambiente tecnológico utilizado;
  • É preciso entender que alguns processos como a avaliação, entrega de atividades e/ou exercícios propostos pelo professor, devem seguir um ritmo diferenciado, com foco no rendimento global e ênfase qualitativa e não quantitativa;
  • No caso dos alunos da Educação Básica, a família deve apoiar os estudos remotos e auxiliar o educando na organização de rotinas e atividades.

Lembrando que o direito a aprendizagem deve ser garantido a todos sempre e que nada substitui uma boa aula presencial e a convivência social proporcionada pela escola.

 

Sugestões para Leitura

KANDEL, E. R. The Molecular Biology of Memory Storage:  A Dilogue Between Genes and Synapses. Science, v. 294: n. 5.544, p. 1.030-1.038, 2001.

KANDEL, E. R. In. Search of Memory. New York: W. W. Norton. 2006.

LENT, R. Neurociência da mente e do comportamento. Rio de Janeiro: Koogan, 2018.

 

Sobre o Autor

Roberta Bocchi

Atualmente é pesquisadora e estudiosa da área de Neurociência aplicada à Educação pela Faculdade de Ciências Medicas da Santa Casa de São Paulo. Trabalha como Supervisora de Ensino efetiva da Rede de Educação Básica do Estado de São Paulo, onde também desenvolve pesquisas na área de Financiamento Público Educacional, Gestão Escolar e Currículo.

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