Pesquisador associado à Rede CpE comenta os possíveis danos para o desenvolvimento do cérebro de crianças e adolescentes que passam fome.

Por Claudio A. Serfaty
Professor Titular e pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF)
Laboratório de Plasticidade Neural
Pesquisador Associado à Rede Nacional de Ciência para Educação

Vimos, na semana passada, o relato chocante de uma professora da rede municipal da cidade do Rio de Janeiro. RIO-DE-JANEIRO! Para quem não soube, uma aluna de oito anos desmaiou de FOME na frente da sua professora. Pode-se imaginar o que está acontecendo longe dos grandes centros urbanos. A desnutrição entre os Yanomamis nos dá uma triste perspectiva desta realidade.

Como neurocientista, não posso deixar de expressar a minha preocupação. Nosso laboratório vem estudando, nos últimos anos, as consequências de formas silenciosas da desnutrição e o impacto no desenvolvimento do cérebro. Mais do que a mera desnutrição, a FOME nos esbofeteia de maneira assustadora, já que desmaiar de fome não é exatamente uma forma silenciosa de desnutrição. A FOME deveria ser coisa de um passado já superado. Lembro da minha formação como médico nos anos 1980. Ainda víamos, nos hospitais pediátricos, quadros assustadores de desnutrição proteico-calórica. Isso tinha ficado para trás nas memórias de um Mapa da Fome.

Nada, a não ser a profunda incompetência administrativa e má fé, justifica que pessoas tenham que se alimentar na “fila do osso”, de restos de comida em lixões. Desemprego, inflação de alimentos na casa dos 13% ao ano, índices de insegurança alimentar beirando os 20% em famílias com crianças…. O que mais é necessário para que o governo se sensibilize? Ou seria pedir demais? Temo que sim! Afinal, as prioridades são passeios de moto e manobras do chamado orçamento secreto. O paraíso é fiscal, minha gente!

O cientista aqui está revoltado! Ainda mais quando toda a ação governamental se resume a um arremedo de Bolsa Família – o tal Auxílio Brasil. Mas só até as eleições, “talkei”? Como se pudéssemos prescindir de POLÍTICAS PÚBLICAS para a redução de desigualdades, de políticas de inclusão social e de alimentação escolar. Este é o fundo do poço? Ainda não. E passo a explicar a minha indignação: a desnutrição pode comprometer gravemente o desenvolvimento do cérebro e toda uma geração de crianças e adolescentes.

A menina desmaiou porque teve uma redução aguda da energia necessária para a manutenção das funções cerebrais. Mas, para além do consumo energético, este fato lastimável mostra que o cérebro das nossas crianças e adolescentes está carente não só de energia básica, mas certamente de nutrientes essenciais. Estes nutrientes são aminoácidos como o triptofano (necessário à síntese de serotonina) e ácidos graxos ômega-3, ambos fundamentais ao desenvolvimento e plasticidade do cérebro em desenvolvimento e que dependem integralmente da ingesta alimentar.

Ocorre que o triptofano é um aminoácido presente principalmente em proteínas de alto valor biológico: proteínas de origem animal ou provenientes de alguns vegetais e sementes, nozes, castanhas e amendoins. Nossos estudos demostraram, em modelos experimentais, que a falta de triptofano reduz drasticamente os níveis de serotonina no cérebro e a capacidade plástica dos circuitos neurais em desenvolvimento. Isto permite prever consequências para o desenvolvimento cognitivo e para a capacidade de aprendizado. Afinal, o desenvolvimento cerebral depende, de maneira fundamental, da capacidade de adaptação dos circuitos neurais às demandas ambientais.

Além do triptofano, os ácidos graxos ômega-3 são outro grupo de nutrientes essenciais que dependem exclusivamente da ingesta alimentar. Estes ácidos graxos poliinsaturados são fundamentais a diversos processos de desenvolvimento do cérebro, como a formação de sinapses, proliferação e diferenciação de neurônios e células gliais, bem como o refinamento de circuitos neurais. Além disso, a carência nutricional destes ácidos graxos está associada a distúrbios inflamatórios e neuroinflamatórios que podem gerar fatores de risco para o déficit de atenção e hiperatividade, autismo e a esquizofrenia.

No caso dos ácidos graxos ômega-3, as fontes nutricionais são ainda mais seletivas, pois estes nutrientes estão presentes em alimentos restritos e de alto custo, como peixes oceânicos, frutos do mar, castanhas, nozes e em menor quantidade, em vegetais escuros. Nosso laboratório mostrou, em estudos com animais de experimentação, que esta carência nutricional também pode resultar em danos permanentes ao refinamento de circuitos neurais e alterações na plasticidade cerebral, principalmente no que diz respeito aos períodos críticos de plasticidade, tão importantes nos primeiros anos de vida e na adolescência.

No atual quadro de FOME que estamos testemunhando, podemos prever que as  múltiplas carências nutricionais trarão graves consequências ao desenvolvimento do cérebro. O quadro parece dramático  – e É! Se nada for feito, esta geração enfrentará graves consequências para o seu futuro e teremos um apagão de desenvolvimento humano.  Mas é importante que se diga que AINDA HÁ TEMPO para agir. O desenvolvimento cerebral é lento, pois o cérebro só está totalmente maduro no final da adolescência, lá pelos 20 anos. Durante todo este período, é possível corrigir desvios e garantir um desenvolvimento saudável. Mas o relógio está correndo e o tempo é fundamental. Temos que resgatar políticas de redução de desigualdades, de segurança alimentar, de acesso universal à educação básica de qualidade e ao ensino superior, bem como aquelas que garantam uma nutrição adequada a gestantes, crianças e adolescentes, pois este é um direito humano fundamental. Precisamos de uma política de estado independentemente de governos!

 

Sugestão de capítulo de livro que escrevi para a Rede CpE, disponível gratuitamente aqui:

  1. Serfaty C.A.; Louzada, F. et al. Fatores Fisiológicos que Influenciam Sobre a Educação. In: Educação Baseada em Evidências. 1 ed. Rio de Janeiro: Rede CpE, 2018, v.1, p. 13-22. Disponível em: <http://cienciaparaeducacao.org/wp-content/uploads/2019/07/livro-2019-online.pdf>.

Outros links gratuitos podem ser encontrados aqui:

Para quem quiser se aprofundar em artigos acadêmicos, seguem algumas sugestões de referências bibliográficas:

  1. Sandre, Poliana Capucho; DA SILVA CHAGAS, LUANA; de Velasco, Patricia Coelho; Serfaty, Claudio Alberto et al. CHRONIC NUTRITIONAL RESTRICTION OF OMEGA-3 FATTY ACIDS INDUCES A PRO-INFLAMMATORY PROFILE DURING THE DEVELOPMENT OF THE RAT VISUAL SYSTEM. BRAIN RESEARCH BULLETIN. , v.174, p.366 – 378, 2021.
  2. CHAGAS, LUANA DA SILVA; Sandre, Poliana Capucho; RIBEIRO E RIBEIRO, NATALIA CRISTINA APARECIDA; SERFATY, CLAUDIO A. et al. Environmental Signals on Microglial Function during Brain Development, Neuroplasticity, and Disease. INTERNATIONAL JOURNAL OF MOLECULAR SCIENCES. , v.21, p.2111 – , 2020.
  3. LIBERMAN, A. C.; TRIAS, E.; Chagas, L.S.; Serfaty, Claudio Alberto et al. Neuroimmune and Inflammatory Signals in Complex Disorders of the Central Nervous System. NEUROIMMUNOMODULATION. , p.1 – 25, 2018.
  4. DE VELASCO, P.C.; SANDRE, P.C.; TAVARES DO CARMO, M.G.; Serfaty, C.A. et al. A critical period for omega-3 nutritional supplementation in the development of the rodent Visual system. BRAIN RESEARCH. , v.1, p.1 – , 2015.
  5. Serfaty, Claudio Alberto; de Velasco, Patricia Coelho. The influence of omega-3 fatty acids in the refinement of subcortical visual pathways and critical periods of plasticity. Current Trends in Neurology. , v.7, p.29 – 38, 2013.
  6. de Velasco, Patricia Coelho; MENDONÇA, Henrique Rocha; Borba, Juliana Maria Carrazzone; Serfaty, Claudio Alberto et al. Nutritional restriction of omega-3 fatty acids alters topographical fine tuning and leads to a delay in the critical period in the rodent visual system. EXPERIMENTAL NEUROLOGY. , v.234, p.220 – 229, 2012.
  7. Penedo, Letícia Abel; Oliveira-Silva, Priscilla; Gonzalez, Ericka M.C.; Serfaty, Claudio Alberto et al. Nutritional tryptophan restriction impairs plasticity of retinotectal axons during the critical period. Experimental Neurology. , v.217, p.108 – 115, 2009.
  8. GONZÁLEZ, E. C. M.; PENEDO, Letícia; SILVA, Priscilla Oliveira; SERFATY, Claudio Alberto et al. Neonatal tryptophan dietary restriction alters development of retinotectal projections in rats. Experimental Neurology. , v.211, p.441 – 448, 2008.
  9. SERFATY, Claudio Alberto; SILVA, Priscilla Oliveira; MELIBEU, Adriana da Cunha Faria et al. Nutritional Tryptophan Restriction and the Role of Serotonin in Development and Plasticity of Central Visual Connections. Neuroimmunomodulation (Basel). , v.15, p.170 – 175, 2008.

Capítulos de livros publicados

  1. Sandre, Poliana Capucho; de Velasco, Patricia Coelho; Serfaty, Claudio Alberto et al. The Impact of Low Omega-3 Fatty Acids Diet on the Development of the Visual System In: Handbook of Nutrition, Diet, and the Eye.2 ed.: Elsevier, 2019, v.1, p. 369-395.
  1. Serfaty, C.A. Conectando o Nosso Cérebro: Nutrição e Desenvolvimento dos Sistemas Sensoriais In: Temas de fronteira em Biologia.1 ed.Rio de Janeiro: Associação Brasileira de Diversidade e Inclusão (ABDIn), 2015, v.1, p. 1-1.
  2. Serfaty, Claudio Alberto; de Velasco, Patricia Coelho. Low Omega-3 Fatty Acids Diet and the Impact on the Development of Visual Connections and Critical Periods of Plasticity In: Omega-3 Fatty Acids in Brain and Neurological Health.1 ed.New York: Elsevier, 2014, v.1, p. 109-120.
  3. Coelho de Velasco, Patricia; Serfaty, Claudio Alberto. The Impact of Low Omega-3 Fatty Acids Diet on the Development of the Visual System In: Handbook of Nutrition, Diet and the Eye.000 ed.New York: Elsevier, 2014, v.1, p. 241-251.
  4. Serfaty, C.A. Tryptophan intake and the influence of serotonin on development and plasticity of sensory circuits In: Handbook of Behavior, Food and Nutrition.1 ed.New York: Springer, 2011, v.1, p. 2135-2151.

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