Pesquisa aponta que baixo nível socioeconômico afeta cognição das crianças, mas ambiente escolar de qualidade pode reverter esse cenário


Qual a relação entre pobreza e aprendizado? Sem dúvidas crianças em situação econômica desfavorável têm menos chance de receber um ensino formal de qualidade em comparação com crianças com mais oportunidades. Mas os efeitos do nível socioeconômico não param por aí. O relatório “A Pobreza e a mente”, fruto de um amplo estudo científico realizado em escolas do Brasil, conclui que a pobreza afeta o desempenho educacional em níveis maiores do que se imaginava, prejudicando inclusive funções cognitivas, como memória, controle da impulsividade e concentração, que no passado eram consideradas determinadas ao nascimento.

O estudo, realizado entre 2010 e 2013 por uma equipe multidisciplinar de pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA), da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade de Luxemburgo, analisou 355 crianças cursando o 1° e o 2° ano do Ensino Fundamental em escolas públicas e privadas nas cidades de São Paulo (SP) e Salvador (BA).

Foram aplicados testes cognitivos às crianças, além de questionários para elas, seus professores e seus pais. Os questionários avaliavam dados demográficos sobre escolaridade e informações sobre o comportamento das crianças. Já os testes cognitivos buscavam analisar a linguagem e as chamadas funções executivas, como a memória operacional (capacidade de manter e manipular informações na mente), a concentração e o controle da impulsividade.

Segundo os pesquisadores, os resultados do estudo sugerem que o nível socioeconômico está fortemente associado às habilidades cognitivas das crianças, sendo responsável por mais de 30% da variabilidade nas funções executivas e mais de 50% da variabilidade na linguagem. “Essas relações permaneceram estatisticamente significantes mesmo após controlados o status nutricional e emocional, bem como a saúde geral das crianças”, aponta uma das autoras do estudo, a fonoaudióloga Marina Puglisi da UNIFESP. “Nós sabíamos que o nível socioeconômico era importante para o desenvolvimento cognitivo, mas nosso estudo mostrou que ele parece ser crucial, especialmente quando há muita diversidade socioeconômica.”

No caso das funções executivas, os pesquisadores observaram que a renda familiar tem grande impacto, provavelmente porque pais com maior acesso a recursos financeiros podem investir mais em materiais ou atividades educativas, como livros, e em melhor qualidade de ensino.

“Precisamos das funções executivas para lembrar informações, controlar as emoções e a impulsividade ou para prestar atenção”, afirma Puglisi. “Pesquisas com neuroimagem têm mostrado que as funções executivas são controladas pelo córtex pré-frontal, uma região cerebral que sofre grande desenvolvimento na infância, o que a torna muito suscetível às influências ambientais. Fatores como a má nutrição, por exemplo, podem impactar negativamente as funções executivas.”

O estudo mostra que uma escola de boa qualidade nos primeiros anos de vida pode compensar as lacunas geradas pelas diferenças socioeconômicas entre as crianças. (foto: Freeimages)

O estudo mostra que uma escola de boa qualidade nos primeiros anos de vida pode compensar as lacunas geradas pelas diferenças socioeconômicas entre as crianças. (foto: Freeimages)

O estudo indica que a linguagem também é significativamente afetada pela pobreza, possivelmente devido a exposição a ambientes pouco estimulantes na primeira infância. “As famílias de níveis socioeconômicos mais baixos tendem a usar palavras em menor quantidade e complexidade do que as famílias com maior renda, o que, em parte, explica porque as crianças das camadas mais pobres tendem a desenvolver mais lentamente a linguagem”, explica o relatório.

Embora a pesquisa aponte que o baixo nível socioeconômico exerce forte impacto negativo sobre o desenvolvimento cognitivo das crianças, ele também sugere que uma educação de boa qualidade nos primeiros anos de vida pode contornar esse problema. Os dados da pesquisa mostram que a capacidade cognitiva das crianças não reflete necessariamente o nível econômico. Crianças pobres, mas que estudam em escolas privadas ou boa qualidade, mostraram melhor desempenho em comparação com aquelas que não têm acesso a esses recursos.

“Muitas vezes as pessoas assumem que o nível socioeconômico é determinado pela família e não há muito o que fazer para mudar esta condição, mas nosso estudo mostra que a escola tem um enorme potencial para diminuir os efeitos negativos da pobreza sobre as funções cerebrais e o desenvolvimento infantil”, comenta Puglisi.

Para que a escola consiga reverter esse cenário, os autores do estudo deixam uma recomendação: investir em programas pré-escolares de alta qualidade pensados com base na ciência.

“Precisamos de programas baseados em evidências científicas consistentes e não apenas em experiências pessoais”, diz Puglisi. “Para isso, é necessário aumentar o financiamento de estudos que usem rigorosos métodos científicos para avaliar programas educacionais. A escola ideal parece ser aquela que está disposta a combinar metodologias baseadas em evidências científicas com o olhar pedagógico e a experiência dos professores. É esta base que permitirá às crianças o acesso ao aprendizado contínuo ao longo da vida, fator-chave para quebrar o ciclo da pobreza, promover a produtividade econômica e reduzir as desigualdades sociais.”

 

 

Sugestões para Leitura
Confira o relatório completo: “A Pobreza e a mente”

 

Sobre o Autor

Sofia Moutinho

Jornalista carioca guiada pela curiosidade e fascinada pela ciência. Especializada na cobertura de ciência, saúde, tecnologia e meio ambiente, atuou como repórter da Ciência Hoje durante maior parte de sua carreira. Na Rede CpE, toca a assessoria de imprensa e a produção de conteúdo.

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