Habilidades como a comunicação interpessoal e a capacidade de comunicar-se de maneira cooperativa são eficientes no gerenciamento do estresse provocado pela pandemia

Por Angela Helena Marin e Ana Carolina de Souza Fonseca

 

As denominadas competências para o século XXI têm conquistado visibilidade na investigação acadêmica internacional e nacional e no planejamento de políticas públicas de diversos países. Tais competências costumam ser classificadas em duas vertentes: as habilidades cognitivas, reconhecidas historicamente na Psicologia e avaliadas pelos sistemas educativos,  e as competências socioemocionais. 

Apesar das controvérsias quanto ao emprego da terminologia adequada, as competências socioemocionais podem ser definidas como a convergência entre o desempenho socioemocional e as demais habilidades que contribuem para o ajustamento social e afetivo dos indivíduos. Assim, trata-se de um construto complexo que engloba conceitos como aprendizagem socioemocional e inteligência emocional. 

Tais recursos tornam-se especialmente úteis em períodos assolados por uma situação de crise social ou emergência pública, como a vivida atualmente em função da pandemia do novo coronavírus.  A experiência de vivenciar uma crise que afeta um elevado número de pessoas tende a mobilizar emocionalmente a muitos. O surgimento de sentimentos como confusão, ansiedade, desesperança e pânico podem ser recorrentes. 

Contudo, o desenvolvimento de recursos pessoais, incluindo as competências socioemocionais, pode fornecer subsídios para o enfrentamento da crise, amenizando seus efeitos negativos. O desenvolvimento destas competências possibilita a percepção e a compreensão das emoções em si e nos outros, a adaptação emocional ao contexto e o manejo funcional das próprias emoções. Além disso, estão atreladas a outros construtos como assertividade, autoestima, autorrealização, empatia, responsabilidade social, comunicação, gerenciamento de estresse, adaptabilidade e tolerância à frustração. 

O enfrentamento de crises, como a pandemia, pode envolver tanto esforços individuais para regular o estado emocional como o estabelecimento de alternativas para a avaliação e a solução do problema. Como já visto, tais estratégias se caracterizam como competências socioemocionais e são identificadas como eficazes na superação de situações estressantes. 

Por exemplo, estudos realizados com sobreviventes de desastres naturais na Europa revelaram que emoções e comportamentos adaptativos, como atitudes não-egoístas e ações para limitar as consequências negativas do evento desencadeador, foram importantes aliados no enfrentamento coletivo da crise. De modo semelhante, habilidades referentes à comunicação interpessoal, como a capacidade de comunicar-se de maneira cooperativa e funcional, foram apontadas como eficientes no gerenciamento do estresse decorrente de situações de crise. 

Devido ao caráter imprevisível das crises sociais, torna-se um desafio se preparar emocionalmente para a ocorrência desses acontecimentos. Contudo, as evidências apontam a presença de competências socioemocionais como um fator de proteção para a resolução satisfatória de adversidades. Por outro lado, caso a conduta adotada não seja adaptativa, pode apresentar-se como um risco para o surgimento de problemas psicológicos. Esses dados demonstram a relevância de intervenções de prevenção e promoção em saúde mental que tenham como fundamentação a aprendizagem socioemocional. 

O reconhecimento internacional da importância de características como resiliência, colaboração, autonomia e comunicação por entidades como a Organisation for Economic Cooperation and Development e a European Reference Framework já tem destacado os avanços obtidos na disseminação destes conceitos. 

Por fim, cabe enfatizar que apesar dos recursos pessoais serem importantes mecanismos para o enfrentamento da crise e do que ela mobiliza emocionalmente, torna-se imprescindível o emprego de medidas governamentais pautadas no conhecimento científico para reduzir as vulnerabilidades decorrentes de uma calamidade pública. Frente à imprevisibilidade característica deste momento, o respaldo da ciência é fundamental para subsidiar as decisões a serem tomadas.

 

Sugestões para Leitura

Grimm, A., Hulse, L., Preiss, M., & Schmidt, S. (2014). Behavioural, emotional, and cognitive responses in European disasters: results of survivor interviews. Disasters, 38(1), 62-83. 

Krum, F. M. B., & Bandeira, D. R. (2008). Enfrentamento de desastres naturais: O uso de um coping coletivo. Paidéia, 18(39), 73-84. 

Marin, A. H., Silva, C. T., Andrade, E. I. D., Bernardes, J., & Fava, D. C. (2017). Competência socioemocional: conceitos einstrumentos associados. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 13(2), 92-103. 

Sá, S. D., Werlang, B. S. G., & Paranhos, M. E. (2008). Intervenção em crise. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 4(1), 01-10. 

Santos, M. V., Silva, T. F., Spadari, G. F., & Nakano, T. C. (2018). Competências Socioemocionais: Análise da Produção Científica Nacional e Internacional. Revista Interinstitucional de Psicologia, 11(1), 04-10. 

Suhaimi, A. W., Marzuki, N. A., & Mustaffa, C. F. (2014). The Relationship between Emotional Intelligence and Interpersonal Communication Skills in Disaster Management Context: A Proposed Framework. Procedia – Social and Behavioral Sciences, 155, 110-114. 

Sobre o Autor

Angela Marin e Ana Carolina de Souza Fonseca

Angela Helena Marin é psicóloga (UFSM), mestre em Psicologia do Desenvolvimento e doutora em Psicologia (UFRGS). Pesquisadora produtividade do CNPq e da Rede Nacional de Ciência para a Educação. Professora dos cursos de graduação e pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Famílias e Instituições Educacionais e Sociais - NEFIES. Ana Carolina de Souza Fonseca é psicóloga pela Universidade Federal do Rio Grande. Mestranda no Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Integrante do Núcleo de Estudos sobre Famílias e Instituições Educacionais e Sociais - NEFIES.

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