Neste CONECTA, apresentamos o conceito de metacognição e a forma como ocorre a resolução de problemas na Olimpíada Brasileira de Linguística. Vem com a gente!

Por Bruno L’Astorina, Janaina Weissheimer e Ingrid Finger

 

A relação entre metacognição e resolução de problemas

Você já parou para refletir sobre como costuma aprender, agir e até mesmo pensar? Metacognição, um conceito inicialmente discutido pelo psicólogo norte-americano John Flavell em 1979 e recentemente atualizado pelo seu colega e conterrâneo Robert Sternberg em 2018, refere-se à capacidade que os indivíduos possuem de refletir sobre suas próprias percepções, pensamentos e ações. É a metacognição que nos torna capazes de ter consciência de como aprendemos, que nos permite avaliar nossas necessidades específicas de aprendizagem e que nos ajuda a elaborar e implementar estratégias que sejam eficazes para dar conta dessas necessidades.

A metacognição está envolvida em todos os nossos processos cognitivos e regula nossas experiências de aprendizagem, uma vez que qualquer processo de aprendizagem humana envolve algum grau de planejamento, monitoramento e avaliação de estratégias. Fonte: Imagem criada pelos autores

A consciência metacognitiva envolve a capacidade de refletir sobre os processos de aprendizagem que vivenciamos a fim de compreendê-los e de nos tornarmos aprendizes mais eficazes. Em outras palavras, é a consciência de como se aprende, de como usar os recursos e informações disponíveis para se alcançar um objetivo e resolver uma tarefa. Para isso, é necessário ser capaz de julgar as demandas envolvidas nessa tarefa e identificar quais as estratégias mais eficazes para se obter sucesso, tendo a iniciativa de implementá-las.

Ao realizar uma tarefa específica, os indivíduos podem adotar vários tipos de estratégias. É justamente a consciência metacognitiva que os torna capazes de avaliar o nível de demanda cognitiva envolvido e, a partir dessa análise, identificar possíveis estratégias que podem auxiliar a alcançar os objetivos estabelecidos de forma mais eficaz.

Na ciência, como podemos avaliar a consciência metacognitiva? Geralmente, através de questionários (off-line) ou de protocolos verbais (on-line), que encorajam a reflexão sobre estratégias empregadas em tarefas específicas. Por meio de pesquisas que investigam esse conceito, uma forte relação tem sido estabelecida entre a metacognição e a resolução de problemas. Afinal, resolver problemas é uma tarefa cognitiva. Se os indivíduos não conhecem um conjunto apropriado de procedimentos para resolver um problema, eles podem buscar em um conjunto de estratégias as melhores alternativas para abordá-lo.

Como funciona a resolução de problemas na Olimpíada Brasileira de Linguística?

Para investigar a relação entre a consciência metacognitiva e a resolução de problemas, investigamos a Olimpíada Brasileira de Linguística (OBL). Realizado anualmente desde 2011, o evento propõe desafios de linguística para estudantes de escolas públicas e privadas de todo o Brasil, além de ser aberto a pessoas de qualquer idade. Os problemas da OBL têm uma especificidade que é a autossuficiência: para resolver um problema, os participantes não precisam conhecer nenhuma língua ou teoria específica; basta fazerem uso de seu raciocínio, sua intuição linguística e seu conhecimento de mundo. Como exemplo, considere o nome dos seguintes países da América do Sul na língua e alfabeto georgianos:

Você não precisa ser um linguista profissional nem fluente em georgiano para descobrir quais são os outros dois países – no final do artigo a gente comenta quais são. Fonte: obling.org

 

Uma das fases da Olimpíada, a Escola de Linguística de Outono (ELO), envolve a convivência de cerca de 60 estudantes de ensino médio de diferentes regiões do país, ao longo de um processo imersivo e formativo que, durante a pandemia, tem ocorrido remotamente. Durante esse período, além de palestras, oficinas e atividades de convivência, os estudantes passam por quatro atividades olímpicas. Uma delas, o chamado Rolezinho Linguístico, envolve a resolução de um problema de pesquisa envolvendo algum aspecto da linguagem – desde a definição de hipóteses, passando pela coleta e análise de dados e terminando em uma apresentação oral. Os vídeos das apresentações orais finais da ELO 2021 estão neste link.

Durante o Rolezinho Linguístico, os participantes da Olimpíada desenham um estudo científico, coletam e analisam dados e apresentam seus achados para um comitê avaliador. Aqui os alunos apresentam suas descobertas sobre a alternância de códigos ou code-switching. Fonte: captura de tela do YouTube.

O que a nossa pesquisa com os OBLeiros revelou

O estudo que conduzimos focou a resolução individual de problemas autossuficientes, como o problema acima dos países em georgiano, só que mais elaborados: um problema sobre numerais na língua divehi (usada nas Maldivas), um sobre a estrutura das frases em iatmül (falada em Papua Nova Guiné) e um sobre o significado de palavras em vietnamita. Os três problemas foram resolvidos pelos participantes no início da ELO 2021, antes de qualquer palestra ou interação maior com os organizadores.

Os participantes também responderam a alguns questionários, incluindo o Inventário de Consciência Metacognitiva criado pelos pesquisadores Raimundo Lima Filho e Adriano Leal Bruni em 2015, que avalia estratégias metacognitivas e de regulação. Ainda, gravaram protocolos verbais durante a resolução dos problemas de linguística, descrevendo a trajetória que percorreram e as estratégias que usaram para abordar cada um deles.

Os resultados da análise da avaliação de consciência metacognitiva dos participantes mostraram que, ao resolver problemas, em geral, eles aplicaram estratégias que funcionaram em sua própria experiência e reconhecem a importância de ativar o conhecimento prévio. Por exemplo, itens como “Eu aprendo melhor quando eu já sei algo sobre o assunto” e “Eu paro e volto quando uma informação não está clara” foram selecionados com maior frequência nas respostas dos participantes. Por outro lado, os participantes demonstraram não saber estabelecer um ritmo ideal para a resolução dos problemas e relataram não reavaliarem as estratégias adotadas durante a resolução do problema. Temos aí uma lacuna que a sala de aula pode preencher!

Outro achado interessante do nosso estudo é que as análises revelam uma correlação positiva entre a consciência metacognitiva do indivíduo e o seu sucesso na resolução de problemas. Em outras palavras, os indivíduos que obtiveram um melhor desempenho na resolução dos problemas foram os mesmos que apresentaram uma pontuação de consciência metacognitiva mais elevada. Isso evidencia que variáveis metacognitivas interagem no sentido de influenciar os resultados das atividades cognitivas. Mais um motivo para o desenvolvimento da consciência metacognitiva ser levado em consideração pelos professores.

Como trabalhar a resolução de problemas para desenvolver a consciência metacognitiva em sala de aula?

Com base nos achados da nossa pesquisa, podemos fazer algumas considerações sobre possíveis caminhos para se promover a consciência metacognitiva em sala de aula.

Primeiramente, precisamos entender que o engajamento da metacognição depende do recrutamento de dois tipos de memória: a memória declarativa e a memória procedimental. A primeira diz respeito ao conhecimento sobre fatos, lugares e pessoas que armazenamos ao longo da vida. Já a segunda a saber fazer alguma coisa ou realizar alguma atividade. A ativação do conhecimento declarativo é uma etapa importante no caminho a ser percorrido durante a resolução de problemas, mas não é a única. É necessário também que o aluno desenvolva uma certa expertise em resolver problemas e, para tal, o treino, o feedback e a repetição são fundamentais – não só para o desenvolvimento de habilidades cognitivas, mas também metacognitivas. Ainda levando-se em consideração os tipos de memória, é essencial que o professor recorra a uma tipologia rica e variada de problemas, garantindo a exposição dos alunos a problemas de diferentes naturezas, pois diferentes tipos de problema recrutam a memória declarativa e a procedimental em diferentes doses.

Ainda, percebemos algo bem curioso com o nosso estudo: o próprio questionário que foi aplicado para aferir o grau de consciência metacognitiva dos participantes fez com que eles percebessem, muitos pela primeira vez, que podem controlar seu próprio aprendizado! Muitos participantes comentaram que nunca tinham pensado tão ativamente sobre a maneira como utilizam suas estratégias e que repararam que possuem métodos de estudo mais sistemáticos do que imaginavam. Isso nos leva a pensar que talvez seja momento de a escola promover mais oportunidades de tomada de consciência metacognitiva por parte dos alunos e que há aí um vasto território para explorar.

Portanto, recomendamos, sim, investir no desenvolvimento metacognitivo dos alunos. Estudos como o nosso mostram que indivíduos que possuem maior nível de consciência metacognitiva, na medida em que se aproximam de uma situação ou de uma tarefa, são mais propensos a reconhecer o fato de que há  múltiplas maneiras de formular uma resposta; se envolvem de forma orgânica em um processo consciente de considerar múltiplas alternativas; e são mais receptivos ao feedback do meio ambiente e do professor, demonstrando maior aptidão para incorporá-lo às decisões posteriores.

Por fim, olhando essa questão do ponto de vista da pedagogia, ao longo do século XX muitas abordagens pedagógicas (de John Dewey a Jean Piaget, de Lev Vygotsky a Paulo Freire) têm buscado desenvolver práticas educacionais centradas no interesse e na autonomia dos indivíduos. Uma dessas pedagogias é o que, a partir de Dewey, se estruturou na forma da pedagogia baseada em projetos / em problemas, muito adotada nos dias de hoje. Essa perspectiva de autonomia na educação tem um paralelo muito próximo com o conceito de metacognição na psicologia cognitiva e nas neurociências: afinal, é possível treinar uma pessoa (ou um computador!) para desempenhar tarefas cognitivas ou procedimentais, mas o desenvolvimento da autonomia sobre o próprio pensar e o próprio fazer só é possível se o indivíduo tiver condições de avaliar, selecionar e modificar suas estratégias ao lidar com as situações da vida. Em outras palavras: o desenvolvimento das habilidades metacognitivas possui uma dimensão ética e política, como qualquer estratégia de aprendizado possui. É importante não perder essa dimensão: a psicologia cognitiva aplicada à educação deve servir não apenas para contribuir com o desenvolvimento de habilidades, mas sobretudo para formar cidadãos com maior capacidade crítica, autonomia e disposição para enfrentar os problemas novos que o mundo traz.

(Ah, os países sem tradução no problema sobre georgiano eram Argentina e Colômbia, e a capital da Geórgia é Tbilisi).

Sugestões para ouvir, assistir e ler

Para saber mais sobre metacognição:

https://www.youtube.com/watch?v=f-4N7OxSMok

Para assistir aos vídeos do Rolezinho Linguístico durante a ELO 2021:

https://www.youtube.com/c/linguimpiada/playlists

Sugestões para Leitura

Davidson, Janet E.; Deuser, Rebecca; Sternberg, Robert J. The Role of Metacognition in Problem Solving. In: Metcalfe; Shimamura (Orgs.) Metacognition: Knowing about Knowing. Cambridge (US): MIT Press, 1994.

Dewey, John. My Pedagogic Creed. School Journal, v. 54, p. 77-80, 1897. Disponível em: http://dewey.pragmatism.org/creed.htm

Flavell, John H. Metacognition and cognitive monitoring: A new area of cognitive developmental inquiry. American Psychologist, v.34, p.906–911. 1979.

Metcalfe, Janet.; Shimamura, Arthur P. Metacognition: Knowing about Knowing. Cambridge, US: MIT Press, 1994.

Sternberg, Robert J. (2018). Theories of intelligence. In S. I. Pfeiffer, E. Shaunessy-Dedrick, & M. Foley-Nicpon (Eds.), APA Handbook of Giftedness and Talent (pp. 145–161). American Psychological Association. https://doi.org/10.1037/0000038-010

Sobre os autores

Bruno L’Astorina é Coordenador da Olimpíada Brasileira de Linguística e Pesquisador do Instituto Vertere institutovertere.org

 

Janaina Weissheimer é Coordenadora do AprendLab no Instituto do Cérebro da UFRN, pesquisadora do CNPq e da Rede CpE. neuro.ufrn.br

Ingrid Finger é Coordenadora do Laboratório de Bilinguismo e Cognição da UFRGS, pesquisadora do CNPq e da Rede CpE ufrgs.br/labico

 

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