Conecta: Sonhar para fugir da ou na realidade?

Por Natalia Mota, professora colaboradora da UFRJ e pesquisadora da Rede CpE. Cofundadora e CSO da Mobile Brain

“Para que sonhamos” é uma das perguntas mais intrigantes que ronda nosso imaginário há séculos. Produções artísticas, o pensamento filosófico e as bases da psicologia já traziam essa vivência onírica como um evento de extrema importância para nossa mente. No entanto, há cerca de 25 anos (no início dos anos 2000), o professor Anti Revonsuo propôs que sonhamos para simular estratégias de sobrevivência, e durante a evolução fomos nos especializando e ficando cada vez melhores nisso. Em humanos, iniciou seus estudos analisando relatos de sonhos em pessoas em situações de guerra.

Mas percebam que interessante: na natureza, temos animais com uma posição ecológica majoritariamente de presa ou de predador. No entanto, nós, seres humanos, podemos ocupar ambas as posições. Daí surge a pergunta: será que numa situação de ameaça ativaremos mais especificamente o recurso onírico como simulador de estratégias?

Para isso, estudamos 30 pares de jogadores em um jogo de videogame onde um fazia o papel de predador armado perseguindo uma presa desarmada (o outro jogador) que precisava basicamente fugir e se esconder, assim como coletar kits de sobrevivência. Após uma primeira sessão de jogo, eles poderiam tirar um cochilo monitorado com eletroencefalografia, eletrocardiograma e fazer registros dos seus sonhos e pensamentos. Ao despertar, jogavam uma segunda rodada onde poderíamos verificar ganhos de performance da presa e do predador.

Foi interessante perceber que apenas a presa teve ganhos de performance associados tanto a características do sono como a de seus relatos de sonhos. As presas que tiveram cochilos com mais sono de ondas lentas, que sonharam com contextos mais parecidos com o dos jogos e que tiveram maior ativação da frequência cardíaca na primeira rodada foram as que tiveram maior ganho de performance. Por outro lado, os predadores não mostraram nenhuma associação significativa com características oníricas ou de fisiologia (sono e frequência cardíaca) com sua performance. Em conjunto, os resultados nos informam que aqueles que sentem mais estresse em situações de vulnerabilidade são justamente os que utilizam esse simulador de realidade virtual-onírico, trazendo vantagens ecológicas para a sobrevivência.

Esse achado nos ajuda a perceber a importância de olharmos para nossos sonhos com todo respeito e cuidado que podemos ter à nossa ancestralidade. A começar pelo ato de despertar com calma e dar atenção a esses eventos tão lábeis que fogem da memória ao primeiro compromisso do dia. O hábito de registrar seus sonhos de alguma forma, compondo um diário de sonhos ou sonhário, treina você para lembrar cada vez mais e de mais detalhes desses eventos que são verdadeiros presentes da sua mente para você mesmo. Nossos povos originários buscam, como tradição, manter a cultura de compartilhar sonhos uns com os outros, sonhar como coletivo, o que, além de fortalecer as memórias dessas experiências na sua vida individual, ancora-as no coletivo de pessoas que podem cuidar e se beneficiar dessas sabedorias geradas em formas poéticas de analogia da realidade vivida. Concluo com uma sugestão a você, leitor, que reflita e adote em seu autocuidado diário a rotina de olhar para sua mente através dos seus sonhos, e se possível, registre, compartilhe com suas pessoas de confiança. Que se valham séculos de evolução das nossas mentes que dormem e sonham para construirmos um mundo melhor.

Referências:
Brandão, D.S., Scott, R.N.B., Soares, E.S. et al. Dream content and slow waves benefit prey against predator in a video game confrontation. Sci Rep 16, 9331 (2026). https://doi.org/10.1038/s41598-026-42759-7
Katja Valli, Antti Revonsuo, Outi Pälkäs, Kamaran Hassan Ismail, Karzan Jalal Ali, Raija-Leena Punamäki. The threat simulation theory of the evolutionary function of dreaming: Evidence from dreams of traumatized children. Consciousness and Cognition, Volume 14, Issue 1, 2005, Pages 188-218, ISSN 1053-8100, https://doi.org/10.1016/S1053-8100(03)00019-9.