Em diálogo com Guilherme Brockington, Mary Helen Immordino-Yang apresentou pesquisas sobre a reflexão na adolescência e o papel dos professores na formação dos estudantes
Aprender conteúdos escolares é parte de um processo mais amplo: desenvolver formas de compreender o mundo, construir a própria identidade e se relacionar com outras pessoas. Essa perspectiva orientou o diálogo com a neurocientista Mary Helen Immordino-Yang, realizado em 17 de outubro, durante o IX Encontro Anual da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.
Com participação a distância e tradução simultânea, a mesa “Emoções, Aprendizagem e o Cérebro” foi mediada por Guilherme Brockington, pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e integrante da Rede CpE. A conversa abordou as relações entre experiências emocionais, desenvolvimento cerebral e práticas pedagógicas, incluindo perguntas recolhidas previamente nas redes sociais do mediador e questões da plateia.
Professora de Educação, Psicologia e Neurociência da Universidade do Sul da Califórnia (USC), nos Estados Unidos, Immordino-Yang é diretora fundadora do Centro de Neurociência Afetiva, Desenvolvimento, Aprendizagem e Educação (CANDLE). Suas pesquisas investigam como adolescentes e professores constroem sentidos para suas experiências e quais são as implicações desses processos para a educação.
Refletir sobre o mundo e sobre si
Um dos conceitos apresentados pela pesquisadora foi o de pensamento transcendente: a capacidade de ir além dos aspectos imediatos de uma situação e refletir sobre suas implicações pessoais, sociais e éticas. Ao conhecer a história de outra pessoa, por exemplo, um jovem pode relacioná-la a questões de justiça, desigualdade ou às próprias escolhas de vida.
Em um estudo que acompanhou 65 adolescentes ao longo de cinco anos, a equipe identificou uma associação entre esse tipo de reflexão e mudanças posteriores na coordenação de redes cerebrais envolvidas no pensamento reflexivo e na atenção dirigida. Essas mudanças, por sua vez, se relacionaram à construção da identidade e, mais adiante, à satisfação com os relacionamentos e à percepção positiva de si. Os resultados foram observados mesmo considerando diferenças de QI e de condição socioeconômica entre os participantes.
Para Immordino-Yang, os achados ajudam a pensar em ambientes educativos que ofereçam oportunidades para os estudantes interpretar experiências, formular perguntas e discutir diferentes perspectivas. O domínio de conteúdos e disciplinas permanece essencial, mas integra uma finalidade mais ampla da escola: contribuir para o desenvolvimento humano. “A aprendizagem é essencial — você deve dominar conteúdos difíceis e disciplinas complexas —, mas a aprendizagem não é o objetivo final, ela é o meio”, afirmou.
Brockington aproximou essa perspectiva das ideias de Paulo Freire, destacando a relação entre conhecimento, reflexão e disposição para atuar no mundo. Na conversa, os pesquisadores ressaltaram a importância de cultivar a curiosidade, a escuta e a capacidade de lidar com questões para as quais não há respostas simples.
O trabalho dos professores e as condições de ensino
Immordino-Yang também apresentou pesquisas sobre as dimensões sociais e emocionais da docência. Em uma delas, professores avaliaram trabalhos de seus próprios alunos e de estudantes desconhecidos durante exames de neuroimagem. Segundo a pesquisadora, a avaliação dos alunos com quem mantinham uma relação pedagógica mobilizou mais intensamente regiões associadas ao processamento social e afetivo, à atenção e à memória.
Uma participante perguntou como desenvolver esse trabalho em turmas numerosas. Immordino-Yang reconheceu a necessidade de mudanças estruturais e de apoio aos professores, ao mesmo tempo que apresentou possibilidades de organização das aulas. Um exemplo foi o de um professor que articulou o estudo de funções exponenciais à análise de dados sobre mudanças climáticas, aproximando o conteúdo matemático de um problema do mundo.
Brockington destacou que a valorização salarial precisa caminhar com a formação docente e com condições adequadas de trabalho. “É preciso ter ambas as coisas: remuneração digna, apoio institucional e formação profunda em perspectivas desenvolvimentistas”, reforçou Immordino-Yang.
Ao abordar o uso de telas e da inteligência artificial, a pesquisadora também enfatizou a importância das interações humanas na educação. Para ela, a tecnologia pode apoiar atividades, mas a construção de vínculos e de uma comunidade em que os estudantes aprendam a pensar juntos permanece no centro do trabalho dos professores.