Por Ana Luiza Neiva Amaral, pesquisadora da Rede SESI e integrante do Conselho de Administração da Rede CpE
Desde a década de 1990, período internacionalmente reconhecido como a “Década do Cérebro”, acumulamos um volume robusto de evidências científicas sobre os mecanismos neurais e cognitivos envolvidos na aprendizagem. Apesar desse avanço, ainda existe um distanciamento considerável entre esse conhecimento e as práticas pedagógicas desenvolvidas nas salas de aula.
O caminho mais legítimo para construir a ponte entre Neurociência e Educação passa necessariamente pela formação de professores. Todavia, quando analisamos as matrizes curriculares da ampla maioria das licenciaturas brasileiras, ainda identificamos uma presença muito tímida de temas relacionados às Ciências da Aprendizagem.
O cenário está mudando
A evolução do marco regulatório da formação docente no Brasil, consolidada por meio das Resoluções do Conselho Nacional de Educação, que instituem as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial e Continuada de Professores, representa uma mudança paradigmática na educação brasileira.
Pela primeira vez, os documentos normativos passam a explicitar que o professor deve “demonstrar conhecimento e realizar atualização permanente quanto à produção científica sobre como os alunos aprendem”, estabelecendo que as decisões pedagógicas precisam estar fundamentadas em evidências.
O movimento representa um avanço histórico. As resoluções passam a exigir que o professor domine não apenas os componentes curriculares, mas também os processos mentais envolvidos na aprendizagem.
Em um cenário marcado pelo excesso de informações, modismos educacionais e neuromitos, é indispensável que o docente desenvolva a capacidade de interpretar evidências científicas, analisar criticamente pesquisas e diferenciar práticas cientificamente fundamentadas de abordagens sem validação empírica.
Esse letramento científico não deve assumir um caráter excessivamente acadêmico ou distante da realidade escolar. Ele precisa ser aplicado, funcional e conectado aos desafios concretos da aprendizagem, permitindo que o professor transforme conhecimento científico em decisões pedagógicas mais qualificadas.
A implementação ainda é um desafio
O Brasil possui uma longa tradição de produção de marcos legais educacionais sofisticados, mas ainda enfrenta dificuldades históricas para transformar diretrizes normativas em mudanças concretas na prática pedagógica. Para que isso não aconteça, precisaremos enfrentar pelo menos duas grandes barreiras.
A primeira delas é a sobrecarga cognitiva docente. O professor brasileiro é submetido a múltiplas demandas burocráticas, emocionais e pedagógicas. Não será por meio de tratados extensos de Neurociência ou formações desconectadas da realidade escolar que conseguiremos converter esse conhecimento em estratégias efetivamente aplicáveis. É preciso menos excesso teórico e mais tradução pedagógica. Mais pontes entre os princípios neurocientíficos e os desafios concretos da sala de aula.
A segunda barreira é o abismo linguístico entre o “neurocientifiquês” da produção científica e a prática educacional. Grande parte dos artigos oriundos dos laboratórios de Neurociência utiliza uma linguagem técnica, pouco acessível aos profissionais da educação. Isso dificulta a democratização do conhecimento científico. Por isso, torna-se essencial ampliar o acesso a materiais de divulgação científica de qualidade, como livros, vídeos, infográficos, podcasts e formações que decodifiquem conceitos complexos em linguagem clara, sem perder rigor científico.
Mais do que inserir novos conteúdos nos currículos de formação docente, estamos diante da necessidade de construir uma nova cultura educacional, na qual ciência e prática pedagógica deixem de ocupar lugares separados. O professor precisa ser reconhecido como um profissional capaz de interpretar evidências, compreender os mecanismos da aprendizagem e tomar decisões pedagógicas mais conscientes, intencionais e eficazes.
As Ciências da Aprendizagem já avançaram. Agora, o grande desafio do Brasil é garantir que esse avanço atravesse as políticas públicas, alcance a formação docente e se traduza em impacto real na aprendizagem dos estudantes.
Referências:
COSENZA, Ramon Moreira; GUERRA, Leonor Bezerra. Neurociência e educação: como o cérebro aprende. Porto Alegre: Artmed, 2011. 152 p. ISBN 978-85-363-2612-2.
AMARAL, Ana Luiza Neiva; GUERRA, Leonor Bezerra. Neurociência e educação: olhando para o futuro da aprendizagem. Brasília: SESI/DN, 2022. 290 p. ISBN 978-65-89559-39-9.
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Resolução CNE/CP nº 1, de 27 de outubro de 2020. Brasília: MEC/CNE, 2020. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/outubro-2020-pdf/164841-rcp001-20/file. Acesso em: 8 maio 2026.
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Conselho Pleno. Resolução CNE/CP nº 4, de 29 de maio de 2024. Brasília: MEC/CNE, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/cne/resolucoes-cp-2024. Acesso em: 8 maio 2026.