Por Andrea Deslandes, professora do Instituto de Psiquiatria da UFRJ e pesquisadora da Rede CpE
Com o surgimento das neurociências, a investigação da relação de mão dupla entre cérebro e músculo foi fortalecida e ampliada, contribuindo para o conhecimento de áreas como saúde, educação e desempenho. Quando nos exercitamos, o músculo produz substâncias, conhecidas como miocinas, que atuam promovendo respostas imediatas e duradouras em todo o organismo que contribuem para a melhora da saúde física e mental.
Um movimento para a cognição
Além das adaptações fisiológicas, modificações funcionais são observadas, como a melhora do desempenho cognitivo, motor e das competências socioemocionais. O exercício físico contribui para a melhora da atenção e das funções executivas, especialmente aqueles supervisionados por profissionais experientes, realizados com controle de volume, engajamento cognitivo e motivação. O movimento no chão da escola, dentro e fora da sala de aula, pode ser uma ferramenta de fácil acesso para potencializar o desempenho escolar. Além disso, o letramento corporal, oferecido nas aulas de Educação Física escolar, é fundamental para formar cidadãos com competência, confiança e motivação para serem ativos durante toda a vida.
Um movimento para a saúde mental
Os benefícios da prática de exercício físico não param por aí. Nos últimos vinte anos, as evidências científicas mostraram um efeito transdiagnóstico do exercício físico na prevenção e no tratamento de transtornos mentais e doenças neurodegenerativas. Em diferentes fases da vida, desde os transtornos do neurodesenvolvimento na infância até os transtornos neurocognitivos no envelhecimento, o exercício físico atua como fator de proteção e na redução de sintomas. O cuidado em saúde mental centrado na pessoa deve compreender as necessidades e prioridades de cada um, e o estilo de vida ativo ganha mais força quando associado à qualidade do sono e da alimentação. O gerenciamento do estresse, a proximidade com a natureza, o uso de substâncias e o contato social são outros aspectos do estilo de vida que impactam no nosso ambiente interno. Entender as relações entre o estilo de vida e a saúde mental é mais um caminho promissor das neurociências.
Quer criar um hábito? Encontre uma motivação
Um dos maiores desafios da neurociência do exercício físico é a compreensão das barreiras e dos facilitadores para a prática de exercícios físicos. Por que a maior parte das pessoas é insuficientemente ativa? Por que a maioria das que iniciam uma atividade desiste em menos de seis meses? Diversas são as teorias que buscam entender os fatores associados à mudança de comportamento e à adesão ao estilo de vida ativo. Um spoiler: a regulação da motivação pode nos ajudar a entender o problema. A motivação extrínseca, por punição ou recompensa, parece não ser a maior motivação para ser ativo. A substituição da expressão “no pain, no gain” (sem dor, sem ganho) por “no play, no gain” (sem diversão, sem ganho) pode ser a grande virada de chave para a promoção da adesão ao estilo de vida ativo. Quando o movimento é associado ao prazer e ao divertimento, ele faz parte do seu propósito, da sua identidade. E todas as consequências na saúde virão como resultado, não como motivação para a prática. Em que momento perdemos o prazer com o nosso corpo em movimento? A Teoria Unificada da Atividade Física nos convida a pensar no movimento humano como forma de sentir, transformar, experimentar e se conectar com o ambiente, com os outros e consigo mesmo.
Referência:
DESLANDES, Andrea Camaz; BENTO-TORRES, Natáli Valim Oliver; SCHUCH, Felipe Barreto; CARVALHO, Ana Paula Lopes. Neurociência do exercício físico: fundamentos para a prática baseada em evidências. 1. ed. Barueri, SP: Manole, 2026. 376 p. ISBN 978-85-204-7444-0.