Realizada em parceria com a Cátedra UNESCO de Ciência para Educação, atividade apresentou contribuições do neuroconstrutivismo radical para a prática docente
A Rede CpE promoveu, no dia 21 de setembro, um encontro on-line com a pesquisadora Tracey Tokuhama-Espinosa sobre teorias da educação, rotinas de estudo e mudanças digitais. Realizada em parceria com a Cátedra UNESCO de Ciência para Educação, a atividade foi voltada a pesquisadores e Amigos da Rede. O encontro foi mediado por Mirela Ramacciotti, coordenadora dos Amigos da Rede, que também realizou a interpretação consecutiva da apresentação.
Tokuhama-Espinosa é pesquisadora em educação, docente da Harvard Extension School e cofundadora da plataforma Conexiones: The Learning Sciences Platform, que disponibiliza a professores recursos baseados em evidências em inglês e espanhol. É também editora associada da revista científica npj Science of Learning. Suas pesquisas abordam a aplicação das ciências da mente, do cérebro e da educação à prática e à formação docente, além de temas como multilinguismo, currículo e uso de tecnologias na aprendizagem.
A apresentação teve como ponto de partida o artigo Radical neuroconstructivism: a framework to combine the how and what of teaching and learning?, publicado por Tokuhama-Espinosa e Cynthia Borja, em 2023, na revista Frontiers in Education. O estudo propõe o neuroconstrutivismo radical como uma abordagem capaz de aproximar conhecimentos da educação, da psicologia e da neurociência.
A pesquisadora explicou que o construtivismo, associado às contribuições de Jean Piaget, parte da compreensão de que as pessoas constroem o próprio conhecimento. Os avanços científicos das últimas décadas acrescentaram a esse debate evidências sobre as redes neurais envolvidas na aprendizagem e na formação da memória. O caráter “radical” da abordagem considera a natureza dinâmica e social desse processo.
Nesse sentido, a aprendizagem não ocorre de maneira isolada. As interações entre professores e estudantes e entre os próprios estudantes modificam a forma como cada pessoa compreende determinado conteúdo. Experiências anteriores, relações sociais, contexto cultural, emoções e elementos que disputam a atenção também influenciam o que e como se aprende.
Conhecimentos prévios e prática docente
Um dos aspectos ressaltados por Tokuhama-Espinosa foi a importância dos conhecimentos prévios. Os estudantes chegam à sala de aula com diferentes experiências, habilidades e pontos de partida. Para avançar em uma trajetória de aprendizagem, precisam dispor das bases necessárias para compreender conteúdos mais complexos.
Uma criança que já domina a adição, por exemplo, pode aprender a subtração com mais facilidade. Quando esse conhecimento ainda não está consolidado, são necessárias mais oportunidades para preencher as lacunas. Isso não significa que o estudante seja menos capaz, mas que ainda precisa construir aquela base.
Outro conceito apresentado foi o de holon: algo que constitui um todo e, ao mesmo tempo, integra um sistema maior. Uma folha, por exemplo, é uma unidade completa, mas também faz parte de uma árvore. Da mesma forma, uma criança é um indivíduo e, simultaneamente, integra uma família, uma turma e uma sociedade.
Aplicada à educação, essa perspectiva permite decompor habilidades complexas em componentes menores. Uma dificuldade de leitura pode estar associada à memória de trabalho, à relação entre símbolos e sons, à fluência ou à organização sintática. Reconhecer esses componentes ajuda o professor a identificar com maior precisão as dificuldades dos estudantes e a planejar intervenções adequadas.
Segundo a pesquisadora, a aprendizagem envolve quatro grandes grupos de redes neurais: as relacionadas à percepção sensorial; às habilidades cognitivas gerais, como atenção e memória; ao contexto social e cultural; e aos conhecimentos específicos de cada área, como matemática e linguagem.
Durante o debate, ela também abordou a relação entre emoção e cognição. O estresse pode contribuir para mobilizar a atenção e o desempenho até determinado ponto, mas se torna prejudicial quando excessivo. A motivação também varia entre os estudantes e ao longo do tempo. “Não é possível ensinar os estudantes de maneira efetiva sem conhecê-los”, afirmou.
Inteligência artificial e aprendizagem
Ao final do encontro, Tokuhama-Espinosa refletiu sobre os impactos da inteligência artificial na educação. Segundo ela, “o cérebro se adapta àquilo que faz com mais frequência”. Quando os estudantes transferem repetidamente para ferramentas digitais tarefas que exigem elaboração e raciocínio, podem deixar de exercitar redes neurais fundamentais.
A pesquisadora citou a escrita como uma prática especialmente importante para o desenvolvimento do pensamento. Por isso, recomendou que o uso da inteligência artificial parta de objetivos pedagógicos claros e da definição dos limites adequados a cada atividade.