Por Gisele Alves, gerente executiva do laboratório de ciências para educação do Instituto Ayrton Senna (eduLab21)*
A pandemia de COVID-19 deixou marcas profundas na educação brasileira, mas seus efeitos sobre a aprendizagem não foram iguais para todos os estudantes. Compreender essas diferenças é fundamental para orientar políticas públicas capazes de responder às necessidades de cada criança e reduzir desigualdades educacionais. É também um exemplo de como o investimento em pesquisa científica pode contribuir para transformar desafios concretos da educação em conhecimento útil para a tomada de decisões.
Com esse propósito, a Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE) e o Instituto Ayrton Senna promoveram conjuntamente o Edital de Pesquisa 002, uma iniciativa de fomento à produção de evidências científicas sobre questões relevantes para a educação brasileira. Entre os trabalhos apoiados está o estudo Impact of COVID-19 on Reading and Arithmetic According to School Level and Socioeconomic Status: A Comparison of Pre- and Post-Pandemic Cohorts, publicado em 2026 na revista científica AMAzônica.
Conduzida por Érica Prates Krás Borges, Gabriella Koltermann, Luciane da Rosa Piccolo, Emanuelle de Oliveira Silva, Júlia Beatriz Lopes-Silva e Jerusa Fumagalli de Salles, pesquisadoras vinculadas a instituições acadêmicas brasileiras e internacionais, a investigação analisou o desempenho de 688 estudantes de escolas públicas de Minas Gerais e do Rio Grande do Sul, comparando grupos avaliados antes e depois da pandemia. O objetivo foi compreender como as diferenças de aprendizagem em leitura e habilidades matemáticas variavam conforme o ano escolar e as condições socioeconômicas das crianças.
Os resultados revelaram um aspecto importante: as dificuldades identificadas não se distribuíram igualmente entre os estudantes nem entre as habilidades avaliadas. Na leitura, as maiores diferenças de desempenho apareceram entre crianças do 3º ano do Ensino Fundamental, que haviam iniciado sua trajetória escolar durante a suspensão das aulas presenciais. Já na transcodificação numérica, habilidade que envolve, por exemplo, escrever números apresentados oralmente, as diferenças mais expressivas foram observadas entre estudantes do 4º e do 5º ano.
As condições socioeconômicas também se mostraram relevantes. Em geral, estudantes de contextos menos favorecidos apresentaram maiores diferenças de desempenho entre os períodos analisados, reforçando que as oportunidades de aprendizagem estão relacionadas às condições em que as crianças vivem e estudam.
Esses achados oferecem subsídios importantes para a gestão educacional. Em vez de tratar a recomposição das aprendizagens como uma intervenção uniforme, os resultados apontam para a necessidade de avaliações diagnósticas, acompanhamento contínuo e estratégias pedagógicas diferenciadas, considerando as habilidades, as etapas escolares e os contextos dos estudantes.
Mais do que documentar consequências de uma crise sanitária, a pesquisa contribui para preparar os sistemas educacionais diante de futuras interrupções escolares, inclusive aquelas provocadas por eventos climáticos extremos e outras emergências.
Ao apoiar estudos como esse, a parceria entre o Instituto Ayrton Senna e a Rede CpE reafirma o valor de aproximar a produção científica dos desafios da educação pública. Fortalecer essa conexão significa ampliar a capacidade do país de produzir conhecimento sobre sua própria realidade e utilizá-lo para construir respostas educacionais mais efetivas e equitativas.
Referências:
Borges, E. P. K., Koltermann, G., Piccolo, L. da R., Silva, E. de O., Lopes-Silva, J. B., & Salles, J. F. de. (2026). Impact of COVID-19 on reading and arithmetic according to school level and socioeconomic status: A comparison of pre- and post-pandemic cohorts. Revista AMAzônica, 19(3), 833–874. Acesso em 22 de julho de 2026: https://periodicos.ufam.edu.br/index.php/amazonica/article/view/20387/12847
*Gisele Alves é psicóloga, mestre em Psicologia com ênfase em Avaliação Psicológica pelo Programa de Pós-Graduação Stricto-Sensu em Psicologia da Universidade São Francisco. Gerente executiva do eduLab21, o Laboratório de Ciências para Educação do Instituto Ayrton Senna, Chairholder da Cátedra UNESCO em Educação e Desenvolvimento Humano e Site Project Manager do Estudo Survey on Social and Emotional Skills (SSES) da OCDE no Brasil.