IX Encontro da Rede CpE debate caminhos para aproximar ciência, escola e políticas públicas

Realizado no Museu do Amanhã, evento reuniu 335 participantes e abordou inteligência artificial, alfabetização, emoções e aprendizagem, além de premiar experiências de professores da educação básica

As relações entre pesquisa científica, práticas em sala de aula e políticas públicas orientaram os debates do IX Encontro Anual da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE), realizado em 16 e 17 de outubro, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Com o tema “Sustentabilidade Social e Ciência para Educação”, o evento reuniu 335 participantes e recebeu 166 submissões de trabalhos.

Durante os dois dias, pesquisadores, professores e estudantes discutiram questões como o uso da inteligência artificial na educação, a alfabetização, o papel das emoções na aprendizagem e o enfrentamento das desigualdades sociais. Palestras, mesas de debate e sessões de pôsteres abriram espaço para pesquisas e relatos de experiências pedagógicas. No encerramento, o III Prêmio Rede CpE na Sala de Aula reconheceu o trabalho de professores das regiões Norte, Nordeste e Sudeste.

A abertura oficial, na sexta-feira, teve a apresentação do Coral Uma Só Voz, projeto social e cultural do Museu do Amanhã que reúne pessoas em situação de rua e vulnerabilidade social por meio da música e do canto. Em seguida, Roberto Lent, um dos fundadores e presidente do Conselho de Administração da Rede CpE, e Janaina Weissheimer, coordenadora-geral da Rede, lembraram a trajetória da organização e de seus encontros anuais.

Educação digital e políticas públicas

O IV Simpósio da Cátedra UNESCO de Ciência para Educação abriu a programação de sexta-feira. Na mesa sobre educação digital, Gisele Alves, do Instituto Ayrton Senna (IAS), apresentou levantamentos sobre o uso da inteligência artificial por gestores, professores e estudantes.

Entre os dados citados, 43% dos professores do Ensino Fundamental e do Ensino Médio relataram utilizar IA generativa na preparação de conteúdos didáticos. Entre os estudantes do Ensino Médio, sete em cada dez utilizam ferramentas como ChatGPT e Gemini, mas apenas 16% afirmam aprender sobre essas tecnologias na escola ou com professores.

“A educação é maior que a tecnologia. Nossa preocupação tem que ser menos no sentido do que a IA pode fazer e mais em quais são os objetivos e problemas educacionais e como a tecnologia pode nos ajudar a enfrentá-los”, afirmou Gisele. Para ela, o ensino com inteligência artificial precisa ser acompanhado pelo ensino sobre inteligência artificial.

Maurício Garcia (Solvertank/Rede CpE) apresentou a Edukors, plataforma de formação de educadores que oferece um “Manual de Inteligência Artificial para Educadores” e 20 cursos gratuitos. A mesa contou com Arioston Rodrigues (SESI), Aline Adria (Redes da Maré) e Marília Guimarães (UFRJ/IDOR/Rede CpE).

Na conferência “Como Tornar a Educação uma Política de Estado?”, César Callegari, presidente do Conselho Nacional de Educação, apontou a interrupção de programas e projetos a cada mudança de governo como um dos entraves ao avanço da área. A conversa foi mediada por Roberto Lent.

Das estratégias das crianças às práticas de alfabetização

A pesquisadora italiana Azzurra Ruggeri, da Universidade Técnica de Munique, apresentou suas pesquisas sobre Ecological Active Learning, em palestra mediada por Felipe Beijamini (UFFS/Rede CpE). Seu trabalho investiga como as crianças participam da própria aprendizagem e adaptam suas estratégias de busca de informações às características do ambiente. Ruggeri ressaltou a importância de ensiná-las a lidar com as incertezas.

No sábado, as relações entre emoções, aprendizagem e cérebro foram discutidas por Mary Helen Immordino-Yang, da University of Southern California, nos Estados Unidos, e Guilherme Brockington (IDOR Ciência Pioneira/Rede CpE), em um diálogo híbrido.

O painel “Refletindo sobre a Alfabetização”, mediado por Lilian Hübner (PUCRS/Rede CpE), trouxe pesquisas e propostas para o ensino da leitura. Ana Luiza Neiva Amaral (Rede SESI) apresentou “Antes das Palavras: O Sentido de Aprender a Ler”. Na participação do Instituto Ayrton Senna, Cíntia Salgado Azoni (UFRN/Rede CpE) abordou uma revisão sistemática com metanálise sobre intervenções em alfabetização, e Renan Sargiani (Instituto EDUBE/Rede CpE) apresentou um guia de práticas para professores. Mônica Timm, do Elefante Letrado, tratou de uma arquitetura pedagógica para o ensino da leitura.

No Momento Translacional “Construindo a Rede com Sustentabilidade Social”, as professoras Eliane Silva e Nilma Alves Adriano participaram de uma conversa com mediação de Fernando Louzada (UFPR/Rede CpE). Rosângela Gabriel (UNISC/Rede CpE) abordou a leitura compartilhada, articulando teoria e prática, e Mônica Miranda (Projeto pela Primeira Infância/Rede CpE) discutiu a interseccionalidade na educação e as perspectivas para o enfrentamento do racismo e da desigualdade social.

Para as crianças a partir de 9 anos, a atividade “Brincar é Ciência” recebeu o projeto Ciência sob Tendas, com Lucianne Fragel, em uma oficina de atividades científicas.

Mulheres na ciência e comunicação

Na sexta-feira, o lançamento do livro Mulher, vá fazer um sanduíche colocou em discussão as experiências de mulheres que realizaram parte do doutorado no exterior. A publicação reúne relatos de cerca de 20 pesquisadoras que participaram de programas de doutorado-sanduíche.

Ana Beatriz Leite dos Anjos (UFRN) e Heloá Caramuru Carlos (Fiocruz) compartilharam suas experiências em um painel mediado por Adriana Melibeu, coordenadora-adjunta da Rede CpE e responsável pelo projeto Meninas nas Ciências, da Universidade Federal Fluminense.

A comunicação científica entrou na pauta de sábado com “Os Sotaques da Ciência no Brasil – Sustentabilidade Social”. A jornalista Mariana Ceci e Pedro Belo, da NAV Produções e produtor dos podcasts Educação Tem Ciência e Ciência Suja, participaram da conversa, mediada por Giselle Soares, da Rede CpE.

O painel “Promovendo Ecossistemas Sustentáveis na Educação” reuniu Anderson Gomes (Departamento de Física da UFPE), Tatiana Leite (cofundadora do Grupo Benfeitoria) e Marina Peixoto (sócia-fundadora da MP Consultoria), com mediação de Renata Aranha (UERJ/IDOR/Rede CpE).

Prêmio valoriza experiências da educação básica

O encontro terminou com a entrega do III Prêmio Rede CpE na Sala de Aula. Foram contemplados Alef Santos, professor de Química da Escola Cidadã Integral Serveliano de Farias Castro, em Caraúbas (PB); Maria Raquel Souza dos Santos, coordenadora de projetos da Creche Municipal Magdalena Arce Daou, em Manaus; e Luziene Sobreira, professora da Escola Municipal Maria Quitéria, no Rio de Janeiro. A cerimônia foi conduzida por Mirela Ramacciotti, dos Amigos da Rede CpE.

Nesta edição, o prêmio selecionou relatos de experiências pedagógicas sobre sustentabilidade social, com foco em bem-estar, justiça social e ambiental, inclusão e redução das desigualdades por meio da educação baseada em ciência.