Marcus Maia discute linguagem, pensamento e inteligência artificial no Quartas em Rede

Pesquisador da Rede CpE e professor da UFRJ defendeu um ensino que estimule a investigação e ajude os estudantes a compreender como constroem sentidos

Comparar frases, investigar ambiguidades e perceber como uma mudança de perspectiva altera a compreensão de um texto: o ensino de língua pode oferecer oportunidades para desenvolver o pensamento para além da memorização de termos gramaticais. Essa foi a proposta apresentada pelo linguista Marcus Maia, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pesquisador e membro fundador da Rede Nacional de Ciência para Educação (Rede CpE), na última edição do Quartas em Rede, realizada on-line no dia 21 de outubro.

O encontro teve como leitura prévia o artigo “Metaconceitos, insight e estrutura invisível”, publicado pelo pesquisador no site Nós da Linguística. No texto, Maia discute como conceitos que organizam diferentes conhecimentos — os chamados metaconceitos — podem transformar a maneira de perceber a linguagem e compreender seu funcionamento.

Durante a apresentação, o professor destacou a perspectiva como um desses conceitos. Reconhecer quem realiza uma ação, acompanhar diferentes pontos de vista e identificar relações entre partes de uma frase são operações que fazemos cotidianamente, muitas vezes sem perceber. A proposta é levar os estudantes a investigar esses processos, tornando conscientes conhecimentos que já mobilizam como falantes.

Observar a leitura para compreender o pensamento

Uma das ferramentas apresentadas foi o rastreamento ocular, que registra onde o olhar se fixa e quando retorna a trechos anteriores durante a leitura. Esses registros ajudam a investigar como leitores processam diferentes construções linguísticas e podem servir de ponto de partida para atividades educativas.

Maia relatou experiências em que os participantes observaram dados coletados com essa tecnologia e discutiram os percursos da leitura. Em vez de apenas receber uma explicação sobre o funcionamento da língua, os estudantes podem comparar resultados, formular hipóteses e refletir sobre suas próprias estratégias de compreensão.

Aprender em tempos de inteligência artificial

A relação entre educação e inteligência artificial também esteve no centro da conversa. Maia reconheceu possibilidades de uso dessas ferramentas na pesquisa e na exploração de informações, mas ressaltou a importância de preservar o envolvimento dos estudantes na elaboração do pensamento.

No debate com os participantes, surgiu a preocupação com a entrega de textos gerados por IA sem que os alunos sequer os tenham lido. Para o professor, a escola precisa criar situações em que experimentar, comparar, formular hipóteses e questionar sejam parte do aprendizado. Ele também defendeu o desenvolvimento da capacidade de confrontar perspectivas e avaliar informações.

Ao final, Maia reforçou que a aproximação entre ciência e educação deve envolver trocas com os professores e suas experiências. “A gente precisa estar na escola com essas ideias para transformar currículos e pensamentos e aprender também com a experiência das escolas”, afirmou.

Criado em 2026, o Quartas em Rede promove encontros bimestrais para compartilhar pesquisas de integrantes da Rede CpE e discutir suas relações com a educação. A iniciativa se articula ao clube de leitura dos Amigos da Rede, realizado desde 2023, ampliando o diálogo entre pesquisadores e pessoas interessadas em aproximar ciência e prática educacional.