Cada vez mais a criatividade tem sido apontada como um requisito essencial para o enfrentamento dos problemas sociais, políticos e econômicos, para a superação dos dilemas morais e éticos e para a solução dos impasses educacionais. É necessário preparar o ser humano para reconhecer as realidades emergentes, antecipar consequências, e formular respostas que possam se transformar em produtos e ideias inovadoras de maneira a contribuir para o bem estar individual e coletivo.
Contudo, nos dias atuais, ainda nos deparamos com ideias estereotipadas acerca do fenômeno da criatividade. É presente, por exemplo, a crença de que criatividade é uma habilidade inata, um privilégio de poucos indivíduos que se mantém intacto ao longo da vida. Também persiste a associação da criatividade com doença mental. Nesta perspectiva, a produção criativa seria resultado de um processo de desorganização psicológica e, portanto, não desejável para uma boa inserção à sociedade.
É forte a influência do exemplo do pintor Van Gogh e do matemático John Nash, romantizados em filmes e livros. Acredita-se ainda que a criatividade manifesta-se apenas em produções artísticas e invenções científicas. Ademais, criatividade tem sido considerada fruto de momentos de inspiração, para os quais não se tem uma explicação racional. A ideia de que a criatividade depende exclusivamente de características individuais, em detrimento da contribuição que o ambiente pode dar ao desenvolvimento dessa habilidade, tem encontrado eco em várias culturas.

Persiste a associação da criatividade com a doença mental. como no caso do matemático John Nash, romantizado no filme “Uma mente brilhante”.
No entanto, as pesquisas científicas acerca do fenômeno criativo têm apontado que tais ideias não encontram respaldo nos resultados obtidos. Criatividade não é uma habilidade cristalizada, condicionada a fatores individuais; ao contrário, pode ser estimulada, encorajada e desenvolvida em diferentes contextos sociais e educacionais. Os estudos revelam ainda que uma boa saúde mental promove comportamentos criativos e, vice-versa, o envolvimento no ato criativo favorece o bem-estar psicológico.
A criatividade pode ser estimulada e desenvolvida em qualquer área do conhecimento ou atividade humana. Trata-se de uma habilidade que não é exclusiva de determinados campos do saber ou de atuação. Além disso, o processo criativo não se resume à inspiração, ao insight, ao “eureca”. É preciso dedicação, esforço, preparação, trabalho prolongado e aquisição de conhecimento para que a emergência do produto ou da ideia criativa ocorra. Como bem salientou Thomas Edison, “criatividade consiste de 98% de transpiração e 2% de inspiração”. A criatividade é fruto da interação entre fatores individuais e ambientais. Não é possível compreender o fenômeno da criatividade olhando apenas para o indivíduo. É necessário considerar em que contexto histórico, social e cultural a pessoa está inserida, em que medida o ambiente pode favorecer ou inibir o desenvolvimento da criatividade.
Um dos espaços mais propícios para a promoção da criatividade é a escola. Muitos estudos têm sido conduzidos em diferentes níveis de ensino com vistas a investigar o quanto a escola tem contribuído para formar indivíduos autônomos, autoconfiantes e flexíveis, para preparar o aluno na identificação e solução de problemas, na produção de ideias inovadoras, bem como para implantar uma cultura institucional que seja receptiva à criatividade (Fleith, 2011). É importante ressaltar que o envolvimento no ato criativo tem ainda um impacto positivo na autoimagem de professores e alunos.
Contudo, é comum nos defrontarmos com obstáculos ao desenvolvimento da criatividade no contexto escolar. Nota-se, por exemplo, que o conhecimento transmitido, na maioria das vezes, centra-se no passado, as disciplinas são apresentadas de forma desconectada, o estudante é ensinado a responder, mas não a questionar e a perguntar. Desde os primeiros anos escolares, aprende-se que há apenas uma resposta correta ao problema, limitando, assim, as possibilidades de novas abordagens e soluções à questão. O erro é considerado um fracasso, uma vergonha que precisa ser evitada a todo custo. O foco é na dificuldade, no que os alunos não dão conta de fazer ao invés de destacar seus pontos fortes, talentos e interesses. Na escola, desde a educação infantil até a educação superior, ensina-se muito sobre o mundo externo em detrimento do autoconhecimento do indivíduo – suas potencialidades, sonhos, ideais etc.

Na escola não é rara a supervalorização do pensamento lógico em detrimento de práticas que estimulam a fantasia, a imaginação e a intuição,.
Observa-se, ainda, que a tradição, muitas vezes, é preferível à mudança e à inovação. É comum comentários que destroem uma nova proposta, tais como “nós nunca fizemos isso antes”, “é uma mudança muito radical”, “nós ainda não estamos prontos”, “alguém já tentou isso antes?”. No ambiente escolar não é rara a supervalorização do pensamento lógico em detrimento de práticas que estimulam a fantasia, a imaginação e a intuição, consideradas uma perda de tempo. Também as expectativas que o professor tem acerca de um aluno pode influenciar em seu desempenho e autoconceito. Isso porque a imagem que temos de uma pessoa impacta na forma com a qual nos relacionamos com ela. Caso a expectativa seja positiva, estaremos mais atentos aos comentários, às necessidades e interesses dessa pessoa. Por outro lado, se for negativa, é bem provável que essa pessoa seja ignorada ou cerceada em suas ações.
Em contraponto às barreiras mencionadas, e considerando que a criatividade deve ser estimulada no contexto escolar, muitos estudos têm indicado estratégias que podem favorecer a expressão do potencial criativo em sala de aula.
Cabe à escola criar condições que transformem o processo de ensino e aprendizagem em atos criativos, construindo e implementando práticas que possibilitem ao aluno e professor expressar e defender suas ideias, usar recursos cognitivos e afetivos na resolução de um problema, desenvolver uma autoimagem positiva, e explorar seus talentos de forma autônoma e autêntica.
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Alencar, E. M. L. S., Braga, N. P., & Marinho, C. D. (2016). Como desenvolver o potencial criador. Petrópolis, RJ: Vozes.
Alencar, E. M. L. S. & Fleith, D. S. (2009). Criatividade. Múltiplas perspectivas. Brasília, DF: Editora UnB.
Fleith, D. S. (2011). Desenvolvimento da criatividade na educação fundamental: Teoria, pesquisa e prática. In S. M. Wechsler & V. L. T. Souza (Eds.), Criatividade e aprendizagem. Caminhos e descobertas em perspectiva internacional (pp. 33-51). São Paulo, SP: Edições Loyola.
Virgolim, A. M. R., Fleith, D. S., & Neves-Pereira, M. S. (2016). Toc toc… plim plim! Lidando com as emoções, brincando com o pensamento através da criatividade (13a ed.). Campinas, SP: Papirus.
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