Como a Neuropsicologia Crítica ilumina os impactos do racismo e da pobreza no desenvolvimento de crianças e adolescentes no Brasil

Por Mônica C. Miranda 

Em um país marcado por desigualdades profundas, pensar educação sem considerar os efeitos da pobreza multidimensional e do racismo estrutural é ignorar parte essencial da realidade que molda o desenvolvimento de milhões de crianças brasileiras. Este artigo apresenta, por meio de uma entrevista com membros do Grupo de Trabalho de Neuropsicologia do Conselho Federal de Psicologia (CFP), uma perspectiva inovadora: uma neuropsicologia crítica, capaz de dialogar com as ciências da educação, com as humanidades e com as demandas sociais urgentes do país.

A neuropsicologia tradicional descreveu historicamente o desenvolvimento humano com forte ênfase no cérebro isolado, em lógica positivista e modelos biomédicos. Mas essa abordagem, ainda predominante nas formações profissionais, se mostra insuficiente para compreender como crianças crescem e aprendem em contextos atravessados por fome, violência, racismo e ausência de políticas públicas básicas. A proposta do GT, ao contrário, parte da ideia de que o cérebro se desenvolve em interação com o contexto social, em um processo de co-gênese entre biologia e cultura. Assim, pobreza e racismo não são apenas “fatores externos”; eles moldam trajetórias cognitivas, emocionais e educacionais.

Pobreza é mais do que falta de dinheiro — e afeta o cérebro desde cedo
Os dados apresentados no artigo são contundentes: seis em cada dez crianças brasileiras vivem algum tipo de pobreza, seja monetária, seja a falta de direitos básicos como saneamento, moradia, lazer ou segurança, é chamada de pobreza multidimensional. Essa realidade não afeta apenas condições materiais — ela repercute diretamente na saúde mental dos cuidadores e na qualidade da parentalidade oferecida.

Além disso, bairros vulneráveis, com pouca infraestrutura e alta exposição a violência, criam condições que ampliam desigualdades. A literatura internacional e brasileira mostra que essas privações convergem para vias biológicas sensíveis, envolvendo inflamação, metabolismo energético e respostas neuroendócrinas ao estresse, com impacto sobre regiões cerebrais relacionadas a atenção, memória e linguagem.

Um outro eixo do artigo é a explicação de como o racismo atravessa o desenvolvimento desde a primeira infância. A construção da identidade racial começa cedo, e a falta de representatividade ou a exposição a estereótipos negativos prejudica autoestima, autoconceito e sentimento de pertencimento — elementos fundamentais para a aprendizagem.

O racismo opera em múltiplas camadas: estrutural, institucional, ambiental e interpessoal. Essas experiências configuram um estresse tóxico contínuo. Pesquisas mostram que esse estresse ativa de forma crônica o eixo HPA, elevando os níveis de cortisol. A exposição prolongada pode gerar atrofia do hipocampo, aumento da reatividade da amígdala, alterações no córtex pré-frontal e distúrbios do sono — todos eles marcadores associados a dificuldades de atenção, funções executivas, regulação emocional e desempenho escolar.

O racismo, portanto, não afeta apenas o bem-estar psicológico: ele produz efeitos neuropsicológicos mensuráveis que incidem sobre aprendizagem, comportamento e perspectivas de futuro.
Esses fenômenos não são individuais: reproduzem desigualdades estruturais e perpetuam injustiças educacionais.

A neuropsicologia está preparada para esse desafio?

A resposta dos autores é clara: ainda não. A área possui um histórico marcado por práticas pouco sensíveis à diversidade, uso inadequado do conceito de raça em testes e interpretações descontextualizadas de desempenho cognitivo. Para avançar, defendem:

  • formação com letramento racial e competência cultural;
  • diversificação dos profissionais e pesquisadores;
  • revisão crítica de instrumentos e normas;
  • práticas avaliativas e interventivas que considerem território, classe, gênero e experiências de opressão;
  • integração entre neurociências, educação, políticas públicas e direitos humanos.

Um convite para transformar ciência em equidade

O artigo é, acima de tudo, um chamado. Propõe que a neuropsicologia brasileira se reinvente, tornando-se capaz de compreender e enfrentar os desafios reais das crianças brasileiras. Isso inclui reconhecer que o desenvolvimento humano é inseparável do contexto social — e que combater a desigualdade também é fazer ciência. O trabalho convoca a neuropsicologia a dialogar com a sociedade. Porque quando ciência e equidade caminham juntas, educação deixa de reproduzir desigualdades e se torna instrumento de transformação.

Acesse o artigo na integra: https://www.scielo.br/j/pcp/a/3bDk8NnGMt4WKfHBWTmCn4w/?lang=pt

Mônica C. Miranda é  neuropsicologa, pesquisadora associada à Rede CpE e membro fundador do Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Infantil (NANI)
http://lattes.cnpq.br/9118075016908696
ORCID http://orcid.org/0000-0002-9006-6809.

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