Pesquisador conta como estudos de seu grupo mostraram pela primeira vez o comportamento cerebral de uma criança brasileira com dislexia. As pesquisas apontam o papel de uma região cerebral responsável pela forma visual das palavras no problema de leitura.

 

Entre 5% e 17% da população mundial têm dislexia, uma perturbação da leitura causada pela dificuldade na aprendizagem da correspondência entre os símbolos gráficos e os fonemas e, por consequência, caracterizada pela leitura lenta e laboriosa. Trata-se de um transtorno do aprendizado relativamente frequente, mas que ainda está associado com muita desinformação na comunidade em geral. Para a comunidade científica, representa um desafio na ponte entre a ciência e a educação. Até hoje, por exemplo, não sabíamos como se comporta fisiologicamente o cérebro de uma pessoa com dislexia lendo em português.

Nosso grupo de pesquisa do Instituto do Cérebro do Rio Grande do Sul e do projeto ACERTA conseguiu mostrar, pela primeira vez, como atua o cérebro de uma criança brasileira com dislexia.  Buscamos investigar este transtorno de aprendizagem a partir do funcionamento do cérebro de crianças do ensino fundamental que apresentaram boa leitura e de crianças, nesta mesma faixa escolar, que apresentam este transtorno de aprendizagem. Em outro trabalho, publicado anteriormente, já havíamos descrito nossa investigação e diagnóstico da dislexia nestas crianças.

Nosso artigo, publicado no periódico Developmental Neuropsychology apresenta dois estudos. Em ambos, mostramos que a área da forma visual das palavras, uma região especial no cérebro que se modifica e se adapta quando a criança aprende a ler,  não se ativa da mesma maneira na criança com dislexia em comparação com a criança da mesma faixa etária que lê normalmente. Encontramos estas evidências por meio de exames de ressonância magnética funcional, que mostram uma imagem cérebro iluminada para as áreas cerebrais com maior fluxo sanguíneo durante uma tarefa de leitura, por exemplo; ou seja, mostram as áreas mais ativadas.

A pesquisa analisou a atividade cerebral das crianças durante uma tarefa de leitura dentro da máquina de ressonância magnética. (foto: divulgação/ACERTA)

Esses exames de imagem foram conduzidos em crianças, na faixa de 8 anos de idade, durante uma tarefa de leitura de palavras realizada dentro da máquina de ressonância magnética. O nosso resultado converge com a literatura internacional, ainda carente de quaisquer evidências neurobiológicas em língua portuguesa, e mesmo outras línguas que não a inglesa.

Observamos que a área da forma visual das palavras fica bem ativa em crianças que estão lendo bem, mas o mesmo não corre nas crianças com dislexia.

Áreas ativadas

Notamos ainda que as crianças que leem bem, além de apresentarem ativação da área da forma visual das palavras, mostraram ativação de áreas frontais do cérebro, associadas com esforço atencional. Apesar de parecer contraintuitiva (se a criança está lendo bem, porque o esforço?), esta evidência é característica de bons leitores em início de alfabetização, quando ainda há necessidade de bastante esforço e atenção na decodificação da leitura.

Com o tempo e a evolução da fluência leitora, este é um esforço que tende a desaparecer para o bom leitor, especialmente na leitura de palavras, para que os recursos cognitivos fiquem à disposição do trabalho maior: compreender textos escritos. A leitura de palavras precisa se desenvolver e se tornar o mais automática possível para que a compreensão leitora de textos aconteça de maneira fluente.

Crianças boas leitoras mostram ativação associada com maior esforço atencional. (imagem: Developmental Neuropsychology)

No segundo estudo, que publicamos neste mesmo artigo, investigamos o cérebro em repouso dos bons leitores e das crianças com dislexia. Este tipo de investigação serve para entender como o nosso cérebro se comporta quando estamos, digamos, descansando. Investigamos, portanto, como se comporta o cérebro e as áreas da chamada rede padrão (default mode network, em inglês) do cérebro, que fica em atividade enquanto repousamos.

Identificar as áreas do cérebro de fora desta rede e cujas conexões ficam ativas com esta mesma rede padrão nos ajuda a entender o comportamento do cérebro em repouso; que áreas ficam se comunicando com a rede padrão, “em espera” para voltar a funcionar. O que mostramos, pela primeira vez na literatura internacional, é que a área da forma visual das palavras nas crianças com dislexia está totalmente desacoplada desta rede “de repouso”.

Isto foi verificado com o que chamamos de conectividade funcional: observamos o comportamento de cada área do cérebro e vimos como estão se comportam em relação à rede padrão. Nos bons leitores, a área da forma visual das palavras está em constante comunicação com a rede padrão durante o repouso.

Já na criança com dislexia, a área da forma visual das palavras tanto apresenta pouca ou nenhuma atividade para a leitura de palavras, como, em repouso, não está em constante comunicação com a rede padrão do cérebro. Este é um comportamento diferente das crianças boas leitoras, cujo cérebro mostrou atividade da área da forma visual das palavras ao lerem e constante comunicação com o cérebro em repouso: como se, mesmo, em repouso, sempre estivessem prontas para ler.

Sabe-se que a leitura, para as crianças com dislexia, além de lenta e laboriosa no seu andor, começa de maneira lenta e laboriosa. Neste artigo, pudemos aprofundar o entendimento da neurobiologia deste transtorno em crianças. Esse resultado pode ajudar a entender como funciona o cérebro da criança com dislexia e basear estratégias para auxiliar no ensino de crianças com dislexia, a partir, por exemplo, da evidência que o cerebrozinho destas crianças não fica de prontidão para a leitura.

 

Sugestões para Leitura

BUCKNER, R. L.; ANDREWS-HANNA, J. R.; SCHACTER, D. L. The brain’s default network: anatomy, function, and relevance to disease. Annals of the New York Academy of Sciences, v. 1124, p. 1–38, mar. 2008.

DEHAENE, S. Os neurônios da leitura: como a ciência explica a nossa capacidade de ler. Tradução d ed. Porto Alegre: Editora Penso, 2012.

PUGH, K. R. et al. Functional neuroimaging studies of reading and reading disability (developmental dyslexia). Mental Retardation & Developmental Disabilities Research Reviews, v. 6, n. 3, p. 207–213, 2000.

SHAYWITZ, S. E. et al. Functional disruption in the organization of the brain for reading in dyslexia. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 95, n. 5, p. 2636–2641, 3 mar. 1998.

Sobre o Autor

Augusto Buchweitz

É doutor em letras, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), pesquisador do Instituto do Cérebro, coordenador do projeto Acerta - Avaliação de Crianças em Risco de Transtorno de Aprendizagem) e também membro fundador da Rede CpE.

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