Pesquisador  comenta recente episódio em que EUA se posicionaram contra resolução da ONU que incentiva amamentação  e destaca a importância do aleitamento materno para o desenvolvimento infantil

Claudio Serfaty
Laboratório de Plasticidade Neural
Programa de Pós-Graduação em Neurociências
Universidade Federal Fluminense
Pesquisador Associado da Rede CPE

 

Recentemente, a delegação dos EUA surpreendeu a comunidade internacional em uma reunião na Assembleia Mundial da Saúde, da Organização Mundial da Saúde (OMS), ao desaprovar uma resolução de incentivo à amamentação que recomendava que os governos limitassem o marketing impreciso ou enganoso de métodos substitutivos da amamentação, como fórmulas infantis. O texto apresentado na assembleia tinha por base extensa literatura científica, que comprova os benefícios da alimentação materna.

A postura dos EUA, atende ao lobby da indústria de alimentos. Infelizmente, a história mostra que fórmulas comercializadas, especialmente em países em desenvolvimento, nem sempre atenderam às necessidades nutricionais da criança. Desestimular a amamentação, em especial em países em desenvolvimento, pode ser ter sérias consequências ao desenvolvimento das próximas gerações.

O cérebro em desenvolvimento, notadamente no período pós-natal, é extremamente dependente de estímulos ambientais e da nutrição. A interação com o ambiente e o aporte adequado de nutrientes são determinantes para o desenvolvimento da percepção sensorial, controle motor, linguagem e cognição. Neste sentido, a amamentação exclusiva até os 6 meses é um fator primordial para um desenvolvimento pleno do bebê uma vez que envolve não só fatores nutricionais, mas também a transmissão de anticorpos maternos, a estimulação sensorial e a criação de vínculos afetivos com a mãe.

Os benefícios do aleitamento materno se estendem para a idade adulta protegendo o indivíduo contra a obesidade e diabetes tipo II. Na perspectiva de políticas públicas de saúde, a amamentação exclusiva até os seis meses de vida representa, ainda, uma estratégia de redução de morbidade e mortalidade infantil.

Cabe lembrar que o aleitamento materno só deve ser evitado em condições muito particulares, tais como nos casos de mães portadoras de doenças infecciosas como HIV ou hepatites B e C. E mesmo nestes casos, pode-se recorrer aos bancos de leite. No mais, todo o esforço da comunidade científica tem sido no sentido de orientar as mães para uma alimentação saudável com dietas ricas em proteínas, vitaminas e ácidos graxos essenciais.

Deve-se ressaltar a importância de políticas públicas voltadas para a educação nutricional e acesso a alimentos de qualidade para gestantes e lactantes. A suplementação com fórmulas infantis, deve, portanto, ser utilizada em casos excepcionais quando há uma clara recomendação médica impeditiva da amamentação.

Estudos desenvolvidos no nosso laboratório e em outros centros de pesquisa mostram a importância do aporte nutricional de nutrientes essenciais – aqueles adquiridos apenas através da ingesta – como o aminoácido triptofano, precursor do neurotransmissor serotonina, e os ácidos graxos ômega-3. Estes nutrientes, adquiridos através do aleitamento materno, são essenciais para garantir os mecanismos envolvidos na maturação dos circuitos neurais, e por conseguinte, o desenvolvimento de habilidades sensoriais, motoras e cognitivas. Desta forma, o aleitamento materno fornecerá todos os elementos nutricionais e a devida estimulação sensorial e afetiva, fundamentais ao pleno desenvolvimento do cérebro ao longo dos primeiros anos de vida.

 

 

Sobre o Autor

Claudio Serfaty

Graduado em Medicina pela UFRJ, mestrado e doutorado pelo Instituto de Biofísica da UFRJ, doutorado sanduíche na Oxford University. Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Neurociências da UFF, pesquisador 2 do CNPq; chefe do Laboratório de Plasticidade Neural da UFF desde 1994 onde são desenvolvidos projetos de pesquisa relacionados ao desenvolvimento pós-natal dos circuitos neurais, com ênfase em nutrição, desenvolvimento do cérebro e períodos críticos de neuroplasticidade.

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