Engana-se quem pensa que focar somente em um assunto por muito tempo é uma boa prática de estudo. A ciência tem mostrado que espaçar é mais benéfico para o aprendizado. A chamada “Prática espaçada” é uma das estratégias já validadas pela ciência do aprendizado.

Como?

Criar um cronograma de estudo que espalha atividades de estudo ao longo do tempo.

Efeito

O efeito é simples: a mesma quantidade de estudo sobre uma dada informação repetida espaçadamente ao longo do tempo levará a uma maior retenção dessa informação a longo prazo do que se a mesma informação for estudada no mesmo tempo, mas em uma única sessão de estudo.

Histórico de pesquisa

Os benefícios da prática distribuída foram demonstrados pela primeira vez empiricamente no século 19. Como parte de uma extensa investigação sobre sua própria memória, o pesquisador alemão Hermann Ebbinghaus (1885 -1913) descobriu que, quando espaçou repetições por 3 dias, quase podia reduzir pela metade o número de repetições necessárias para reaprender uma série de 12 sílabas em um dia. Assim, concluiu que “uma distribuição adequada de [repetições] ao longo de um espaço de tempo é decididamente mais vantajoso do que comprimir todos eles em uma única vez”. Desde então, centenas de estudos examinaram os efeitos do espaçamento tanto no laboratório quanto na sala de aula.

Base científica

A “nova teoria do desuso” de Robert Bjork  dá uma explicação mecanicista para os benefícios do espaçamento ao aprendizado. Esta teoria postula que as memórias têm força de evocação e força de armazenamento. Enquanto a força de evocação é pensada como útil para medir a facilidade com que uma memória pode ser recuperada em um dado momento, a força de armazenamento (que não pode ser medida diretamente) representa até que ponto uma memória é realmente incorporada na mente. Enquanto se estuda, tanto a força de evocação quanto a de armazenamento recebem um impulso extra. Contudo, a extensão do quanto a força de armazenamento é aumentada depende da força de evocação, e o relacionamento é negativo: quanto maior a força real de evocação, menores serão os ganhos na força de armazenamento. Assim, as informações aprendidas espremidas em um curto tempo serão rapidamente esquecidas devido à alta força de recuperação e baixa capacidade de armazenamento, enquanto que a aprendizagem espaçada aumenta a força armazenamento por permitir que a força de evocação diminua antes de se reestudar.

Dicas práticas

Os professores podem revisitar as informações ao longo do semestre, ou mesmo em futuros semestres. Isso envolve algum planejamento inicial e pode ser difícil de se fazer, dadas as limitações de tempo e a necessidade de cobrir um currículo definido. No entanto, o espaçamento pode ser alcançado sem grandes custos se os professores reservarem alguns minutos por aula para revisar informações de lições anteriores.

Outra opção é atribuir o ônus de espaçar aos próprios alunos.  Por exemplo, os professores podem sugerir que os alunos programem sessões de estudo em dias que se alternam com os dias em que aquela matéria é ensinada (por exemplo, cronograma de sessões de revisão para terça e quinta-feira enquanto a turma se reúne segunda e quarta-feira; para um horário semanal mais completo de prática espaçada).

 

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Sobre o Autor

Sofia Moutinho

Jornalista carioca guiada pela curiosidade e fascinada pela ciência. Especializada na cobertura de ciência, saúde, tecnologia e meio ambiente, atuou como repórter da Ciência Hoje durante maior parte de sua carreira. Na Rede CpE, toca a assessoria de imprensa e a produção de conteúdo.

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