Colunista aponta a necessidade de se discutir o bi/multilinguismo e o ensino de línguas no Brasil

Ao tratarmos de bilinguismo ou multilinguismo, vários campos de discussão se abrem, destacando-se dentre eles 1) a relação entre bilinguismo e cognição ao longo da vida, 2) a diversidade linguística de nosso país e 3) o ensino e a aprendizagem de línguas em termos pedagógicos e de políticas linguísticas de valorização das línguas como veículos de ação pessoal e social. Cada um desses três temas será apresentado nesta coluna.

Antes de embarcarmos na discussão dos três temas propostos e respondermos à pergunta proposta no título, é importante que se defina o que se entende por bi e multilinguismo. A definição do que venha a ser um bilíngue pode variar entre dois extremos: de um lado, inicialmente se postulava que bilíngue era uma pessoa que dominava perfeitamente duas línguas, nas quatro habilidades (fala, escrita, leitura e compreensão oral); no outro extremo, aceitava-se que bilíngue era a pessoa que compreende ou produz algumas palavras, mais corriqueiras, na língua que não a sua materna.

Atualmente, entende-se que bilíngue é o falante com competência comunicativa nas duas (ou mais línguas, no caso do multilíngue), capaz de se comunicar e se fazer compreender, não necessariamente com uma competência equilibrada nas línguas. Isso é bastante lógico, pois nem mesmo um monolíngue consegue ser igualmente competente nas quatro habilidades, ou ainda, nem sempre domina perfeitamente construções mais formais de sua própria língua materna.

Sobre a relação entre bilinguismo e cognição, a literatura, em especial a internacional, aponta em geral para uma vantagem dos bi/multilíngues sobre os monolíngues em algumas habilidades cognitivas, como na consciência metalinguística, que é a habilidade de usar a linguagem para refletir e tratar sobre ela própria, e em algumas das funções executivas como a inibição, que entra em ação, por exemplo, quando decidimos inibir um estímulo para nos concentrar em outro, como o que ocorre quando prestamos atenção a uma notícia televisiva e desprezamos o barulho do telefone tocando, e na flexibilidade mental, que atua ao trocarmos um procedimento ou pensamento vigente por outro, por exemplo, quando trocamos uma tática em um jogo de cartas. Além de todas essas, haveria uma vantagem para o bilíngue em termos de criatividade.

No campo das desvantagens advindas do bilinguismo, entre as crianças, haveria uma tendência a um vocabulário mais reduzido em cada uma das línguas nos estágios iniciais de aquisição em comparação com crianças monolíngues, um acesso lexical dificultado e uma fluência verbal reduzida.

Entre as crianças bilingues, haveria uma tendência a um vocabulário mais reduzido em cada uma das línguas nos estágios iniciais de aquisição em comparação com crianças monolíngues. (foto:gfpeck/Flickr - CC BY-NC-ND 2.0)

Entre as crianças bilingues, haveria uma tendência a um vocabulário mais reduzido em cada uma das línguas nos estágios iniciais de aquisição em comparação com crianças monolíngues. (foto:gfpeck/Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)

As vantagens anteriormente mencionadas seriam perceptíveis desde a infância até o envelhecimento, na condição de que ambas as línguas fossem usadas com bastante frequência e que tivessem um grau elevado de proficiência. Uma explicação para a vantagem seria a de que a experiência de administrar duas línguas reorganiza redes cerebrais específicas, cria uma base mais efetiva para o controle executivo, o que garantiria melhor desempenho cognitivo ao longo da vida. Em outras palavras, a prática linguística frequente de selecionar uma língua inibindo a outra, ou de trocar de uma para outra em uma situação de interlocução entre bilíngues, parece projetar-se para outros domínios cognitivos.

Essa vantagem em diversos níveis da cognição demonstrou até mesmo impactar sobre o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas. Um estudo conduzido por Ellen Bialystok e colegas em 2007, corroborado por Fergus Craik e equipe em 2011, revelou que, em um hospital em Toronto, no Canadá, onde se encontravam hospitalizados pacientes diagnosticados com Doença de Alzheimer, os que eram bilíngues tinham desenvolvido a doença em média 4,1 anos mais tarde que seus pares monolíngues. Assim, advoga-se que o bi/multilinguismo, da mesma forma que bons hábitos de leitura e de escrita, escolaridade elevada e profissões de cunho acadêmico, sejam responsáveis pela formação de reservas cognitivas que, de certa forma, fortalecem o cérebro a ponto de postergar o surgimento de doenças relacionadas ao envelhecimento.

Apesar de muitos dos estudos internacionais apontarem para essas vantagens cognitivas do bi/multiliguismo (o que não é unânime e vem sendo questionado por autores como Kenneth Praat e outros), estudos nacionais nem sempre as evidenciam ao comparar o desempenho entre bilíngues e monolíngues. A maior parte desses estudos tem sido desenvolvida nos estados brasileiros em que houve um número mais expressivo de imigração de europeus, em especial alemães, italianos e poloneses, no século XIX. Algumas questões podem explicar a nem sempre presente vantagem cognitiva dos bilíngues sobre os monolíngues no Brasil.

No Brasil, as línguas de imigração costumam ser usadas na conversação diária, mas não comumente em sua forma escrita.

No Brasil, as línguas de imigração costumam ser usadas na conversação diária, mas não comumente em sua forma escrita.

A primeira explicação recai sobre a forma de uso no Brasil das línguas trazidas pelos imigrantes, a qual tem características distintas do uso em seus países de origem. Aqui no Brasil, elas costumam ser empregadas na conversação diária, mas não comumente em sua forma escrita. Em outras palavras, os bilíngues brasileiros dessas regiões de imigração comunicam-se oralmente entre si, porém não costumam ler ou escrever na língua de imigração. Desse modo, o uso restrito de apenas duas das quatro habilidades poderia influenciar.

A segunda explicação poderia recair sobre questões socioeconômicas, de escolaridade ou ainda de hábitos de leitura e escrita dos bilíngues brasileiros. A comparação entre amostras de populações de países com distintas realidades socioeconômicas torna-se bastante difícil, uma vez que o status socioeconômico está intrinsecamente relacionado ao nível de escolaridade, e ambos impactam sobre a cognição.

Nas pesquisas sobre cognição e bilinguismo, portanto, é essencial controlarem-se variáveis como escolaridade, status socioeconômico, hábitos de leitura e escrita, além dos fatores intrínsecos ao bilinguismo, como frequência de uso e proficiência nas línguas, idade e forma de aquisição das línguas e a tipologia linguística, bem como explicitação dos construtos cognitivos investigados (por exemplo, qual tipo de função executiva se pretende analisar). Como nem sempre todas essas e outras variáveis são metodologicamente controladas e como os perfis dos participantes e as perguntas de pesquisa variam muito de estudo para estudo, comparações tornam-se difíceis de serem estabelecidas.

Passaremos agora ao segundo tema proposto para discussão,  respondendo à pergunta do título: o Brasil é um país mono, bi ou multilíngue? A resposta mais provável para a maioria das pessoas seria dizer que vivemos num país monolíngue, afinal, no dia a dia, não costumamos empregar duas línguas, como é o caso, por exemplo, do Canadá, onde inglês e francês convivem. Esse pensamento, entretanto, é um mito. Temos, sim, uma diversidade linguística muito grande no Brasil, que inclui um contingente de cerca de 330 línguas, sendo 274 indígenas (conforme IBGE, 2010) e cerca de 56 línguas de imigração. Além dessas, outra língua nacional é a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), cujo ensino é obrigatório em vários cursos de graduação no país. Temos ainda as línguas de comunidades afro-brasileiras e as línguas crioulas, que, grosso modo, são línguas alinhavadas por grupos de pessoas que falam línguas diferentes e que precisam se comunicar.

Diante desse cenário plurilíngue nacional, passamos à discussão do terceiro tema, relacionado à manutenção e ao ensino de línguas no Brasil. No cenário atual, urge repensar, atualizar e implementar políticas públicas abrangentes relativas ao ensino e à aprendizagem de línguas nacionais e estrangeiras, bem como à manutenção de línguas com tendência à extinção. Uma evidência da importância do tema é, por exemplo, a expansão de escolas bilíngues espalhadas no Brasil (diferentes das internacionais, que seguem um currículo internacional a fim de auxiliar o ingresso dos alunos em cursos no exterior). Esta expansão deveria ser melhor regulamentada e amparada por evidências científicas quanto à eficiência, por exemplo, de métodos de ensino. Pais buscam cada vez mais escolas bilíngues com o intuito de propiciar mais precocemente aos filhos o contato e a imersão na segunda língua, em geral o inglês.

(Foto: Arnaldo Alves)

Cerca de 330 línguas são faladas no Brasil, sendo que 274 delas são indígenas. (Foto: Arnaldo Alves)

Especificamente, apresentamos alguns temas relevantes e urgentes a serem tratados no cenário de ensino de línguas e de manutenção de línguas no Brasil:

–  planejamento de formas de manter, fortalecer e valorizar o uso das línguas de imigração, muitas das quais encontram-se em processo de extinção por serem repassadas às novas gerações de forma cada vez menos frequente;

– planejamento e implementação de políticas públicas de diversidades linguísticas, também eficientes para o ensino das línguas indígenas, de comunidades afro-brasileiras e línguas crioulas, a fim de que se mantenham como ferramenta linguística nas comunidades e como patrimônio cultural;

– fortalecimento dos cursos de licenciatura envolvidos no ensino de línguas estrangeiras, de imigração e de LIBRAS, bem como do português brasileiro como língua adicional, ou ainda do ensino de língua estrangeira (espanhol) nas escolas de fronteira, não só no sentido de capacitar os professores para o exercício cada vez mais eficiente de sua tarefa, mas também para conscientizá-los sobre o papel político, cultural e social, de voz e vez, relacionado ao uso da(s) língua(s) pelo indivíduo; isso é relevante uma vez que um idioma, mais do que palavras, manifesta crenças, culturas, aspectos históricos e sociais;

– apoio em termos de regulamentação e de capacitação às escolas bilíngues em nosso país, uma vez que muitas questões seguem abertas, com evidências empíricas praticamente inexistentes sobre temas como a melhor forma de alfabetizar crianças nessas escolas, se as crianças deveriam ser alfabetizadas em ambas as línguas (o português brasileiro e a outra língua ensinada, em geral o inglês) de forma concomitante ou sequencial; quais seriam as idades mais adequadas para a alfabetização, quais métodos seriam os mais eficientes, qual seria o nível de proficiência e de prontidão para leitura e escrita desejados em ambas as línguas antes do início do processo de alfabetização, quais seriam os melhores currículos a serem adotados pelas escolas, só para ilustrar alguns dos temas ainda a serem aprofundados, orientados e regulamentados por setores públicos ligados à educação de crianças e jovens.

Numa época em que se discutem questões relevantes de cunho cognitivo, social e educacional relacionadas à linguagem, torna-se necessária uma profunda reflexão para a implementação de políticas linguísticas para o ensino das línguas empregadas no contexto nacional. As discussões sobre políticas linguísticas concentram-se distribuídas em três eixos, conforme a concepção de língua: língua como problema, como direito ou como recurso. A partir do exposto, percebe-se que há ainda um longo caminho a percorrer em cada um desses eixos. É necessário valorizar e preservar línguas minoritárias, refletir e implementar políticas cada vez mais eficientes relativas ao ensino e à aprendizagem de línguas e implementar uma gestão do multilinguismo nacional, desvinculando-se de uma visão monolíngue.

 

Sugestões para Leitura

Altenhofen, Cléo V. (2013) Bases para uma política linguística das línguas minoritárias no Brasil. In: Nicolaides, Christine et al. (orgs.). Política e políticas linguísticas. Campinas, SP: Pontes Editores, p. 93-116.

Altenhofen, Cléo V. (2014) O “território de uma língua”: ocupação do espaço pluridimensional por variedades em contato na Bacia do Prata.  In: Fernández, Ana Lourdes da Rosa Nieves; Mozzillo, Isabella; Schneider, Maria Nilse & Cortazzo, Uruguay (orgs.). Línguas em contato: onde estão as fronteiras? Pelotas: Editora UFPel, p. 69-103.

Guerreiro, Carmem. (2011) Dois idiomas, uma criança. Revista Educação, agosto 2011. 

Oliveira, Gilvan Müller de. (2016) Políticas Linguísticas: uma entrevista com Gilvan Müller de Oliveira. ReVEL, v. 14, n. 26.

 

 

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