A prática de lembrar é uma estratégia de estudo que envolve tentar lembrar informações às quais fomos anteriormente expostos. Isso pode ser feito de várias maneiras, como responder exercícios de qualquer natureza que façam refletir sobre a matéria (questões, testes, trabalho em grupo, etc.). Embora essa prática aumente o tempo de retenção de informações comparada às formas tradicionais de estudar, essa estratégia não costuma ser a mais usada entre os alunos.

Em artigo publicado no periódico Scielo, nossas pesquisadoras associadas Roberta Ekuni (Universidade Estadual do Norte do Paraná) e Sabine Pompeia (Universidade Federal de São Paulo) apresentam essa estratégia em detalhes e discutem importantes fatores que interferem nessa prática, incluindo: a importância de feedback, a forma com que a prática de lembrar é realizada e o formato de resposta dos alunos, o número de repetições de tentativas de recordar informações e o intervalos entre essas repetições.

O artigo está publicado em português e inglês aqui. 

 

Confira alguns dos destaques da publicação:

1.Feedback

O feedback, ou seja, informar os alunos se a resposta dada na prática de lembrar foi correta ou não, é fundamental. Ele deve ser aplicado especialmente se os testes aplicados envolvem múltipla escolha, pois quando os estudantes são expostos a alternativas erradas, eles podem lembrar da opção incorreta.  O feedback não precisa ser dado pelo professor. A resposta ao teste pode ser consultada em listas de respostas de exercícios em um livro, ou por consulta do material de apoio. O essencial é que os alunos possam checar se acertaram ou não as respostas e quais são as as respostas corretas.

2. Formatos e características de testes

Vários formatos de testes podem ser usados na prática de lembrar: questões de múltipla escolha, reconhecer questões como verdadeiras ou falsas, recordação livre, perguntas abertas, questões dissertativas com ou sem pistas etc. De acordo com estudiosos, testes abertos são mais adequados para eliciar reorganização (reconsolidação) do conteúdo aprendido. Quando comparados com questões de múltipla escolha, testes abertos se mostraram melhores na promoção de memória de longo prazo. Em geral, a eficácia de testes de múltipla escolha na promoção de retenção duradoura de informações depende da qualidade das alternativas. Ao formular as questões de múltipla escolha, o professor deve evitar “pegadinhas”. Nos casos em que as alternativas são muito semelhantes entre si, elas podem levar os alunos a escolherem uma alternativa errada e persistir nessa resposta quando tentarem recordar a informação posteriormente. Esse efeito é chamado de sugestão negativa e pode resultar em aprendizado de conteúdos errados. Contudo, isso geralmente ocorre somente quando não é dado um feedback sobre se houve ou não acerto da questão.

3. Formatos de exame ou prova final

Além de instrumentos de avaliação, as provas, quando bem formuladas, também ajudam os alunos a aprender. Os efeitos da prática de lembrar são encontrados mesmo quando não o formato do teste e do exame final são diferentes, por exemplo, quando os testes têm questões abertas e a prova envolve testes de múltipla escolha, o chamado “formato cruzado”. Esse formato permite avaliar a transferência de informação a outro contexto, evitando assim a mensuração de simples memorização de respostas ou decoreba, que pode acontecer se exatamente a mesma pergunta, com as mesmas alternativas de resposta, são dadas para praticar lembrar e novamente na prova. O formato cruzado também promove mais uma chance de praticar lembrar de forma diversificada, pois as questões são diferentes, fazendo com que a prova seja uma oportunidade de aprender. 

4. Características das modalidades de respostas a testes

Em relação ao tipo da resposta dada durante práticas de lembrar, não parece haver diferenças se elas são escritas, digitadas, faladas em voz alta ou somente pensadas . O difícil é saber se os alunos de fato estão pensando nas respostas quando são feitas perguntas em sala de aula. Uma forma de contornar isso é fornecer aos alunos um conjunto de cartões de papel colorido, cada qual para uma alternativa específica de resposta de questões de múltipla escolha. Por exemplo: o cartão azul é a alternativa A, o verde, a B etc. O professor escreve a questão e as alternativas no quadro ou as projeta numa tela. Os alunos devem ter um tempo para pensar na resposta e então o professor solicita que eles levantem os cartões com a resposta que acham correta. Desse modo, há uma garantia de que todos se esforcem para responder. Os cartões são coloridos para auxiliar o professor a detectar os erros mais facilmente. 

5. Número de repetições de práticas de lembrar e intervalo entre elas

Estudos mostram que o maior ganho em termos de retenção é obtido pela primeira tentativa de tentar recordar informações. Praticar lembrar o mesmo conteúdo mais vezes aumenta ainda mais a retenção, mas os ganhos a cada nova tentativa de lembrar são proporcionalmente menores. Não é claro qual o número ideal de repetições de práticas de lembrar sobre cada conteúdo. Alguns estudiosos sugerem que duas repetições de teste com feedback sobre conteúdos reais de sala de aula são suficientes para garantir um aprendizado duradouro, mas não se pronunciaram sobre os intervalos de tempo entre as repetições. Outros experimentos  indicam que testar cada conteúdo três vezes, com feedback, é melhor do que testá-lo uma só vez em termos de recordação posterior. Ou seja, a literatura não tem uma resposta sobre qual o número ideal de repetições de práticas de lembrar e com qual intervalo de tempo. Um ponto de atenção é o intervalo entre as repetições. Estudos sugerem que repetir um teste várias vezes sequencialmente em curto espaço de tempo, o chamado esquema maciço,  é desvantajoso para a retenção de longa duração em relação aos distribuídos ao longo do tempo. Isso ocorre, possivelmente, porque lembrar informações em testes repetidos em curto período de tempo é mais fácil, pois as informações estão “frescas” na memória. Essa modalidade não introduz esforço suficiente na recordação para eliciar os efeitos positivos da prática de lembrar em longo prazo. Então prefira testes ou estratégias espaçadas. Ou seja, é importante que os professores estimulem, ao longo de todo o curso, que os alunos façam exercícios sobre conteúdo dado anteriormente, integrando os conhecimentos que estão sendo discutidos com a matéria fornecida. Práticas de lembrar aplicadas repetidamente num curto intervalo de tempo, como exemplo, véspera da prova, não promovem aprendizado real. 

 

Sobre o Autor

Sofia Moutinho

Jornalista carioca guiada pela curiosidade e fascinada pela ciência. Especializada na cobertura de ciência, saúde, tecnologia e meio ambiente, atuou como repórter da Ciência Hoje durante maior parte de sua carreira. Na Rede CpE, toca a assessoria de imprensa e a produção de conteúdo.

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